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domingo, 22 de maio de 2011

UM RELÓGIO FIXE, história de Ilona Bastos




Num domingo, ao almoço, sem esperar, o Tiago recebeu do avô um magnífico relógio.

- Repara! - disse-lhe o avô. - O relógio tem luz no mostrador, todas as horas estão marcadas com algarismos, é à prova de água e funciona a pilhas, por isso não precisas de lhe dar corda...

- Fixe! - exclamou o menino, maravilhado. – Muito obrigado, avô. Vou andar sempre com ele.

E assim fez. O menino colocou o relógio no pulso, empoleirou-se ao colo da mãe para que lhe relembrasse a leitura das horas, e a partir desse dia não mais largou o relógio.

Na escola foi um sucesso, naturalmente, pois de todos os relógios presentes - que nos braços das crianças cronometravam mil e uma tropelias - o relógio do Tiago era o mais fantástico, o mais moderno, enfim, o mais fixe... Nunca se atrasava, nem adiantava. E ao menino não dava trabalho algum, pois nem de corda o relógio precisava, sempre enérgico, sempre dinâmico, sempre pontual!

E, também, assim, o Tiago passou a ser o aluno mais pontual da sua sala!
 
Ora acontece que numa noite, encontrando-se o menino a dormir, começou o relógio a sentir-se indisposto: eram os braços doridos - isto é, os ponteiros sem força; era uma forte dor de cabeça - ou seja, o mecanismo a fraquejar; eram umas tonturas tais que o ponteiro dos segundos - aquele mais veloz e mais traquinas, com uma energia ímpar - dava um passo à frente e outro atrás, sem saber se avançar se recuar.

O relógio ainda tentou chamar a atenção do menino, soltando pics e tics e tucs - o que nele não era nada habitual.

Mas o Tiago não acordou, voltou-se para o outro lado e continuou a sonhar.
       
De manhã é que foi a decepção, quando o menino percebeu que o relógio parara. Já  o sol ia alto, inundando de luz toda a casa, e os ponteiros marcavam as três horas da madrugada, como se ainda fosse noite e as estrelas cintilassem no céu.

- O relógio não funciona! O relógio está doente! - gritou o Tiago, aflito.

O pai e a mãe correram para ver o que se passava, e observaram atentamente o mostrador. O pai aproximou o relógio do ouvido, verificou os botões da luz e de acertar os ponteiros, e abanou a cabeça, muito sério.

- É grave? - perguntou o menino, ansioso.

- Está muito fraco. - diagnosticou o pai. - Precisa de alimento.

- Alimento?! - exclamou o menino, aliviado. - Se é só isso, resolve-se já!

E, de um pulo, correu em direcção à cozinha.

Do quarto, os pais ouviram-no espreitar o frigorífico, bater as portas dos armários, abrir e fechar gavetas, mexer em loiças e talheres. Daí a pouco, o Tiago regressava, vitorioso.

- Cá está! Leite com cereais! – anunciou. - O alimento próprio para um relógio fixe!
Os pais caíram na gargalhada e a mãe, sem parar de rir, dirigiu-se à escrivaninha do escritório, trazendo uma peça pequenina e prateada, semelhante a um botão, que entregou ao pai.

- Não estou a perceber a razão de tanta risota... - disse o garoto, meio queixoso, meio divertido.

- É que o alimento do relógio é esta pilha. - esclareceu o pai. – Vou colocá-la aqui e o relógio fica como novo...

- Ou seja, volta a ser um relógio fixe - concluiu o menino.

- Exactamente! - aprovou a mãe. - Mas agora que o relógio já está em forma, precisamos de dar alimento, também, a um miúdo fixe...

- Pilhas! - gritou o Tiago, maroto.
       
- Errado! - corrigiram os pais, risonhos. - Leite com cereais!


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O PÃO-DE-LÓ, história de Ilona Bastos


Pela manhã, a mãe do David levantou-se, de caracóis revoltos, lavou as mãos e correu à cozinha.

Aí, ferveu o leite, que deitou sobre o chocolate em pó, cortou uma gorda fatia de pão-de-ló, e tudo dispôs num tabuleiro, com uma palhinha vermelha e um alvo guardanapo de papel.

Depois, foi a vez de acordar o David, ensonado, recusando abrir os olhos.

- Bom dia, filhote! - cantou a mãe. - Vamos acordar.

O menino murmurou:

- Não...

- São horas de levantar! - disse a mãe, olhando o relógio.

O menino voltou-se na cama e resmungou:

- Não.

- Olha que tens de ir para a escola e não deves chegar atrasado! - lembrou a mãe, destapando o dorminhoco.

O menino fechou os olhos com força e agarrou-se aos cobertores:

- Não!

- Ai! Ai! - zangou-se a mãe. - Tu não queres acordar e lá dentro o pão-de-ló não pára de reclamar.

- O pão-de-ló? - perguntou o David, abrindo os olhos.

- Sim, o pão-de-ló - respondeu a mãe, expedita. - Não sei o que combinaste com ele, mas insistiu imenso em falar contigo, não me deixou sossegada, e agora está na sala, à tua espera...

- O pão-de-ló! - exclamou o menino, de olhar brilhante, sentando-se na cama.

Depois, sorriu, maroto, estendendo os braços:

- Ajuda-me, mãe. Tenho uma reunião importante, agora.

- Sim? – perguntou, a mãe, aliviada, entregando ao filho a camisa e as calças de ganga. - Tens uma reunião na escola, com a professora?

O David torceu o nariz e acabou por soltar uma gargalhada:

- Não, mãe, não! Na sala, com o pão-de-ló!



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A CHUVA, história de Ilona Bastos

Naquele dia cinzento em que o Inverno chegou e fez o mercúrio descer nos termómetros, a mãe abriu a gaveta da cómoda e de lá retirou uma fofa camisola de lã às riscas.

- Toma esta camisola nova! - disse ela, entregando o agasalho ao filho, que o vestiu. - Hoje vais bem quentinho para a escola.

Pela rua fora, mãos nos bolsos, a assobiar, o Alexandre saiu cedo para as aulas, satisfeito e confortável dentro da sua nova camisola de lã.

E também a mãe ficou contente quando o menino, ao fim do dia, lhe contou que muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e que não tivera frio nenhum.

Então, a mãe lavou rapidamente a camisola e estendeu-a a secar, para o filho poder vesti-la no dia seguinte.

Aconteceu que nessa noite caiu uma bátega de água, e de manhã, quando a mãe quis apanhar a camisola, foi encontrá-la fresquinha, molhadinha e... com metade do tamanho - com a chuva, a bela camisola nova de lã encolhera!

- Que grande aborrecimento! - desabafou a mãe, espreitando pela janela. - E ainda por cima vai continuar a chover durante todo o dia, por isso é melhor levares a gabardina.

Lá seguiu o Alexandre para o colégio, radiante, de capuz enfiado na cabeça, dando pontapés nas pedras da calçada.

Quando regressou, no final da tarde, a mãe ficou aliviada ao verificar que o menino muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e não se molhara. Só os sapatos não se apresentavam no seu estado normal: estavam um pouco húmidos... ou melhor, molhados... bom, na verdade, estavam completamente ensopados!

- Rapaz! Rapaz! - exasperou-se a mãe - O que andaste tu a fazer?

E rapidamente descalçou o menino, colocando os sapatos junto do aquecedor.

No dia seguinte, pela manhã, a mãe tentou calçar o Alexandre. Mas os sapatos, marotos, recusavam-se a deixar os pés entrar, empurrando-os para fora - com o banho e a secagem, os sapatos tinham encolhido!

- Que maçada! - queixou-se a mãe. - Esta chuva parece que não pára, e hoje terás de levar as botas de borracha.

Que prazer, para o Alexandre, caminhar sobre poças e pocinhas, chapinhando e saltando, espalhando água em redor. De gabardina e com botas, não havia chuva que lhe chegasse, e o menino sentia-se nas suas sete quintas!

Mas, ai dos meninos traquinas! Distraído como ia, o Alexandre não reparou num buraco, mesmo à entrada do colégio. Quis pular e espadanar e acabou estatelado, a tomar banho na lama.

Para que não se constipasse, a professora despiu-lhe a roupa molhada e vestiu-lhe calças, camisola e gabardina, que havia no colégio para estas ocasiões. Só que o Alexandre era pequeno, e a roupa era grande...

Bom, quando, ao entardecer, o menino voltou para casa, veio a mãe, ansiosa, recebê-lo à porta. E vendo a esvoaçante gabardina, bem abaixo dos joelhos, as largas mangas escondendo-lhe as mãos, lançou os braços ao céu e exclamou:

- Ai, meu filho! Desta vez foste tu que encolheste!

camisola - suéter

gabardina - capa de chuva

sábado, 21 de novembro de 2009

O AMÁVEL REFILÃO, história de Ilona Bastos



O AMÁVEL REFILÃO ou A ALDEIA DAS PESSOAS FELIZES


Era uma vez um viandante que se chamava Amável.

Um viandante é uma pessoa que coloca aos ombros a sua mochila carregada de coisas importantes - tais como a escova de dentes, o sabonete, o casaco e o chapéu - e vai viajar para terras distantes. Quero dizer, o viandante não passeia próximo da sua casa, da sua escola, ou do seu escritório. Ele toma um barco ou um comboio, por exemplo, e desce num local longínquo, que pode ser uma praia, um bosque ou uma cidade. Depois, não permanece aí durante muito tempo. Descansa um pouco, recolhe a bagagem, consulta o mapa, escolhe um destino e põe-se a caminho.

O viandante da nossa história, como todos os outros viandantes com quem se cruzava nas suas andanças, pouco parava. Contudo, destacava-se dos demais por duas características particulares: em primeiro lugar, por os pais, babosos do seu rebento, o haverem baptizado com o nome de Amável; em segundo lugar, por este nosso amável viandante ser, na verdade, um incorrigível refilão.

Estranha ironia, que um homem tão rezingão, tão pronto a encontrar defeitos em tudo e em todos, tivesse, afinal, o mais delicado dos nomes!

Sempre crítico, o viandante Amável saltitava, impaciente, de terra para terra, à procura do local ideal para viver. Porém, cada cidade que visitava lhe parecia mais desagradável do que a anterior, e a sua irritação não tinha limites.

É que ao viandante Amável agradavam as moradias de amplas janelas e belos jardins, mas desgostavam os altíssimos edifícios em betão que escureciam as ruas, tornando-as estreitas, húmidas e sombrias.

O viandante Amável apreciava os parques arrelvados, com árvores frondosas e lagos brilhantes que os patos selvagens e os pombos sobrevoavam em bandos. Mas horrorizava-o a pobreza dos bairros da lata, onde as crianças deambulavam ao frio e com fome.

O viandante Amável entusiasmava-se com as sensações de liberdade e de aventura que a velocidade lhe proporcionava. Mas desanimava-o a poluição libertada pelos tubos de escape dos automóveis.

Também dos teatros, dos cinemas e dos cafés gostava o viandante Amável. Mas sempre o deixavam indisposto os ruídos ensurdecedores das buzinas, das motorizadas, e até dos aviões que rugiam em constantes aterragens e descolagens.

Como não existiam cidades sem altos edifícios em betão, sem bairros de lata, sem poluição e sem ruídos, andava o viandante Amável permanentemente de sobrolho franzido, de um lado para o outro, a refilar, a refilar.

É claro que no início o viandante Amável reclamava com razão. Temos de reconhecer que nenhum de nós gosta da escuridão, da pobreza ou da poluição. Contudo, este viandante exagerava, acabando por ganhar o hábito de tudo criticar, nada aceitar, ao ponto de os amigos lhe terem posto a alcunha de Amável Refilão.

Para piorar a situação, o Amável Refilão também fugia das praias, esbaforido, irado com os turistas que lhe ocupavam o espaço e importunavam o descanso.

E das conhecidas estâncias de montanha nem se fala, que o punham furioso as conversas dos jovens ansiosos por deslizar, em esquis, pelas encostas cobertas de neve.

- Que disparate! - gritava ele, com os cabelos no ar e a cara vermelhíssima. - Não há sítio onde se possa viver!


* * * * * * * * * * * * * * *


Certo dia, andando o Amável Refilão nas suas viagens, parou numa aldeia pequena, de casas baixas, caiadas, e ruas com sardinheiras.

Chegando à estalagem onde decidira pernoitar, o Amável Refilão tocou a sineta, para chamar o estalajadeiro, e, perante este, pôs-se de imediato a reclamar, como era seu hábito:

- Diga-me! Que terra é esta, afinal? Não tem letreiro, não tem nada!

- Esta terra chama-se Aldelizes - respondeu o homem.

- Aldelizes? Mas que nome mais disparatado! Onde já se viu... - continuou o Amável Refilão a protestar, sem dar oportunidade ao outro para explicar a razão de tão insólito nome.

Na verdade, a aldeia denominava-se Aldelizes por ser a Aldeia das Pessoas Felizes.

Porém, o Amável Refilão não se calava:

- Então, na sua estalagem não tem um quarto cor-de-grão com uma janela ampla voltada para um riacho onde nadam trutas salmonadas?

- Não. Tenho um quarto branco, com vasos de túlipas nas janelas que abrem para uma planície verdejante - respondeu o estalajadeiro, calmamente.
- Também serve, também serve - resmungou o Amável Refilão, de testa franzida e ar zangado.

A rezingar, sempre a rezingar, subiu, atrás do seu anfitrião, as escadas de pinho luzidio que conduziam a um corredor comprido, ladeado por uma dezena de portas.

Quando o estalajadeiro abriu uma das portas, o corredor ficou completamente inundado de luz, como se um enorme candeeiro tivesse sido ligado. É que a porta dava acesso a um quarto extraordinariamente luminoso. Bem no centro do aposento, os raios de sol, que entravam pela janela aberta, reuniam-se alegremente e dançavam valsas ao sabor da aragem.

Por momentos, o viandante Amável teve mesmo que parar de resmungar, deslumbrado perante tão maravilhoso espectáculo.

Lentamente, pousou a mochila em cima da cama e aproximou-se da janela. Nunca ele avistara uma paisagem tão bela!

Até ao fundo, até ao horizonte, estendia-se uma magnífica planície, que era um campo liso, suave, sem montanhas nem declives, sem altos nem baixos - como um imenso campo de futebol, mas sem as marcações brancas e sem balizas, antes com vegetação abundante, plantas e árvores que formavam um mar verde e ondulante a brilhar ao sol.

Espantado, o viandante Amável abria a boca.

No entanto, recordando-se, subitamente, de que deveria sempre discutir, voltou-se para o dono da estalagem, franziu o sobrolho e, de nariz levantado, perguntou:

- Aqui não se almoça? Tenho de ficar com fome?

- O almoço está servido na cozinha - respondeu o estalajadeiro. E retirou-se.

O viandante Amável ficou só, no quarto, observando, agora com curiosidade, todo o aposento onde se encontrava. Como o estalajadeiro dissera, tinha paredes brancas e túlipas nas janelas. A cama, de madeira clara, erguia-se ao centro do quarto, ladeada por tapetes de linho cru, laboriosamente confeccionados ao tear. O armário, também de pinho, encostava-se a um canto, reflectindo a claridade do sol. A mesa de cabeceira e a cadeira, estáticas e silenciosas, quase ausentes, acomodavam-se em redor da cama.

Uma paz sem explicação invadiu o viandante Amável, que se lembrou de uma canção sobre flores e sobre andorinhas a voar.

Para se compreender o que ele sentia é preciso somar dois mais dois. Quero dizer, numa folha de caderno, é necessário pintar uma casa com uma chaminé inclinada no telhado. Ou melhor, escrever a palavra pai com todas as letras perfeitamente desenhadas - o "p", com o seu elegante mergulhar na linha de baixo, seguido do impulso que o une ao "a", redondo, sem ser demais, e o "i", leve como quem anda, naturalmente, ostentando a pinta que se não desequilibra.

Pois, tudo isto, que é tão simples e perfeito, sentia o viandante Amável, quase que sonhando.

Sem saber como, apenas com a intuição de que deveria alimentar-se, o viandante Amável deu alguns passos até à porta, rodou a maçaneta e saíu do quarto. Depois, fechou a porta e, repentinamente acordado, desceu a escada e dirigiu-se à cozinha, para almoçar.

Bom, já todos nós percebemos que o quarto do Amável Refilão era mágico. Só ele é que não sabia. Mas a verdade é que, por qualquer razão misteriosa, enquanto se encontrava dentro do quarto, o viandante Amável não tinha vontade de refilar. E isso era estranho - estranhíssimo! -, pois, como já expliquei, o viandante Amável passava a vida, toda a vida, mesmo, a reclamar.

Ora se queixava da comida, porque tinha pimenta a mais, ora das crianças, porque berravam e pulavam sem descanso. Ora se lastimava do sol, porque lhe queimava os olhos, ora da neve, porque lhe gelava os ossos...

Não havia dia, hora ou minuto em que o Amável Refilão não protestasse.

Ao almoço, portanto, o Amável Refilão gritou: que a carne estava mal passada e o doce não tinha açúcar. Na rua, o Amável Refilão vociferou: que as estradas eram duras e os caminhos pedregosos. No campo, o Amável Refilão lastimou-se: que as árvores eram altas e as flores demasiado baixas. De regresso à estalagem, o Amável Refilão lamuriou-se: que os pés lhe doíam e o cabelo se despenteara.

Porém, quando entrou no quarto, novamente o viandante Amável ficou fascinado. O Sol punha-se, no horizonte. Isto é, aquela imensa estrela que é o Sol, qual bola alaranjada, ia desaparecendo no extremo último dos campos, banhando-se em nuvens de múltiplas nuances e de aromas silvestres. E o viandante Amável não resmungou.

No dia seguinte, depois de passada a primeira noite no quarto mágico, o viandante Amável só com dificuldade conseguia encontrar defeitos para apontar. De quando em quando, se acaso se lembrava, lá fazia um esforço e uma crítica, mas sem grande convicção.

Pela segunda vez, pernoitou o viandante Amável no quarto mágico, e tais foram os sonhos, plenos de cores suaves e doces sensações, que ele acordou com uma disposição magnífica. Todo o dia, passou-o nos campos, ou junto ao riacho onde, afinal, lá encontrou, nadando com enérgica alegria, as trutas salmonadas.

Refilar? Só uma vez o viandante Amável o fez - e por dever, temente de perder a prática e o jeito.
O viandante Amável ficou pela terceira noite no quarto mágico. O odor dos campos e dos pomares povoou-lhe os sonhos.

Desperto, pela manhã, com o cantar dos pássaros, desceu à rua e visitou a aldeia: as suas casas brancas e jardins floridos; a escola, onde as crianças aprendiam as letras e os números; o hospital, onde os médicos receitavam tratamentos e curavam os doentes; o edifício dos bombeiros, onde estes limpavam os carros vermelhos, as mangueiras, e poliam os dourados; a igreja, emanando esperança, em mármore rosa, com imagens suaves esculpidas na pedra.

Durante todo o dia o viandante Amável não refilou, e a cada passo estampava-se, no seu rosto, um sorriso de felicidade.
Tomou, então, uma decisão importante: passaria o resto da sua vida naquela aldeia.

Comprou um postal que retratava a planície e o resplandecer da sua folhagem. Endereçou-o à sua cidade de origem e escreveu: "Finalmente, sou feliz."

À noite, de regresso à estalagem, disse ao estalajadeiro:

- Já sei a razão por que a aldeia se chama Aldelizes.

E recolheu ao quarto.

A partir daí, o homem da nossa história deixou de ser viandante, pois passou a viver, a trabalhar, a morar na aldeia das pessoas felizes. Aí casou e tem agora a sua família.

Aos amigos que o visitam, leva-os a conhecer a estalagem, a planície, as ruas e o riacho. E cada um deles aprende e transporta, de regresso à sua cidade, um pouco do segredo da felicidade. De Aldelizes recebem um vaso com sardinheiras que, colocadas em floreiras, se espraiam pelas varandas e restituem às ruas a sua cor e alegria. Transportam ideias bem simples - qual ovo de Colombo! - que ajudam a resolver o problema da tristeza, da pobreza, da poluição. Recebem bolbos de túlipa, que o homem da nossa história, entusiasmado, não se cansa de elogiar. E os amigos sorriem quando o vêem assim, de olhar brilhante, feliz!

De Amável Refilão que era, passou a ser apenas Amável. E é assim que todos o conhecem em Aldelizes.



sábado, 10 de outubro de 2009

A MENINA ALFACINHA, história de Ilona Bastos

Naquele dia, a professora Dina entrou na sala, pousou a pasta em cima da secretária e voltou-se para os alunos com um lindo sorriso:
- Hoje vão ter uma nova colega!

Os meninos agitaram-se nas cadeiras, e o Francisco, o mais atrevido, perguntou:
- Como se chama a nova aluna?

A professora Dina procurou nos papéis, guardados num dossier, hesitou e voltou a sorrir:

- Bom... chama-se Almerinda Etelvina Engrácia Pancrácia da Silva... Mas os amigos tratam-na por Menina Alfacinha.

Toda a turma tornou a dançar sobre os assentos.

- Menina Alfacinha? Mas que nome mais engraçado!

- Já sei porque se chama Alfacinha! - gritou o Pedro, saltando. - É Alfacinha porque nasceu em Lisboa!

A professora Dina abanou a cabeça.

- Não! - disse ela. - A Menina Alfacinha não nasceu em Lisboa, nasceu em Sintra.

- Ah! - exclamou o Manuel. - A menina chama-se Alfacinha porque o seu clube de futebol preferido é o Sporting!

A professora Dina tornou a negar.

- Não! Na verdade, a Menina Alfacinha gosta muito de verde e até aprecia futebol, mas ainda não escolheu pertencer a nenhum clube em especial.

- Então a menina tem esse nome porque é ecologista - afirmou a Mariana, muito séria. - Gosta da Natureza e quer defendê-la.

A professora Dina, mais uma vez, largou a sorrir.

- Com certeza que a Menina Alfacinha gosta da Natureza e quer defendê-la, aliás como todos nós aqui na sala. Mas não é por isso que lhe chamam Menina Alfacinha.

- Diga, diga, professora! - pediram os meninos, em coro. - Porque é que a nova aluna se chama Alfacinha?

A professora Dina, mais do que sorrir, soltou uma verdadeira gargalhada.
- É que a Menina Alfacinha tem o cabelo verde!

Os meninos riram também, incrédulos.

- Ninguém tem o cabelo verde - disse o Rui, agarrado à barriga de tanto rir.

- Tem, tem! - respondeu a professora Dina. - Tem a Menina Alfacinha. Passou debaixo de uma escada, e... vejam lá que grande azar!... Levou com um balde de tinta verde na cabeça!

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terça-feira, 28 de julho de 2009

VOANDO COM O VENTO, história de Ilona Bastos

I
Era uma vez uma pequena pastora chamada Rosa Branca, que vivia com os pais junto a uma alta montanha.
Desde criança, os pais haviam encarregado Rosa Branca de subir ao monte todos os dias, para guardar o rebanho. E a pequenita, vestindo a sua capa de lã, trepava com esforço, encosta acima, até pastagens verdes e tenras.
Ora acontece que certo dia, achando-se Rosa Branca no alto da montanha, entretida a atirar pedras ao longe, para o cão as apanhar e trazer de volta, ouviu um som muito fino.
Olhou em redor, para baixo e para cima, mas não conseguiu descobrir o que produzira tal ruído, pelo que lhe pareceu que o barulho era causado pelo ar. Era o ar que falava, ou melhor, o ar em movimento: o vento.
O vento que, no céu muito azul, empurrava as nuvens, brancas e luminosas, a grande velocidade, como um cajado de pastor guiando o seu rebanho para o norte. O vento que, ao ouvido de Rosa Branca, murmurava, sussurrava, brincando-lhe com os braços e as pernas, puxando-lhe o cabelo, fazendo-lhe festas na cara.
A menina sorriu, com alegria. E logo, numa troca de sons e aragens, o vento e a pequena pastora tornaram-se amigos, de tal modo que, nesse fim de tarde, de regresso a casa, montanha abaixo, a menina sentiu que o vento a acompanhava e ajudava na descida.
No dia seguinte, também para a subida - esta mais difícil - o vento deu o seu auxílio, empurrando energicamente Rosa Branca, de tal forma que lhe bastou dar grandes passadas pelo ar, que do resto a aragem se encarregou. E em três tempos chegou às pastagens do alto.
Como se entendiam, que ideias ou brisas trocavam, não é sabido, apenas que desde então Rosa Branca deixou de se fazer transportar de carroça, carro ou camioneta, pois que voava com o vento: se queria subir, de imediato o ar soprava para cima; se desejava descer, logo uma corrente de ar a levava para baixo - tudo de maneira que as distâncias deixaram de existir e, como é costume dizer-se, do longe se fez perto.
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II
O tempo foi passando, Rosa Branca cresceu e cansou-se de viver na Aldeia. Disse então aos pais que desejava mudar-se para a Grande Cidade, o que estes aceitaram. Na verdade de nada lhes servia dizer que não - pois pode alguém prender o vento? E à jovem pastora, de mochila às costas, bastou declarar suavemente:
- Para a cidade, vamos!
Ao primeiro passo, o vento empurrou-a, ao segundo passo, o vento dominou-a, e ao terceiro passo, lá foi a menina de cabelos no ar, os braços abertos, as pernas movendo-se em largas passadas pelos verdes campos fora.
Chegada à Grande Cidade, Rosa Branca procurou abrigo em casa de uma familiar que há muitos anos deixara a Aldeia. A prima Margarida recebeu Rosa Branca com prazer, mas disse-lhe que era pobre, que por isso apenas poderia dar-lhe um quarto onde dormir, com cama e roupa lavada. Quanto ao resto, não podia ajudá-la. Havia, por isso, necessidade de que a pequena pastora arranjasse emprego.
Corajosa e decidida, Rosa Branca disse que em nada a preocupava a ideia de trabalhar, pois que desde muito criança o fazia. E saiu à procura de trabalho.
Quando descia a Grande Avenida - uma das principais da cidade -, suavemente empurrada pela mesma brisa que afagava o mármore das frontarias, Rosa Branca avistou um letreiro, dependurado de uma vitrina, que pedia para aquela loja uma empregada.
Sem hesitar, a Rosa Branca entrou, e meia dúzia de palavras trocadas já se encontrava cá fora, com um lenço a tapar-lhe os caracóis escuros, um balde com água e detergente numa mão, e uma esponja na outra.
Seguia-a a dona do estabelecimento, segurando um pequeno escadote e fazendo-lhe recomendações para que não caísse. Ora cair! Como se o vento abandonasse alguma vez a sua protegida!
E, sem a ajuda da escada, Rosa Branca lavou a magnífica montra, limitando-se a dar pequenos saltos quando desejava subir um pouco mais, ou seja, alcançar o cimo do vidro, uns bons metros acima da sua cabeça.
É claro que tal cena tinha necessariamente de chamar a atenção dos transeuntes. Estes, que em grande número desciam a avenida, no entusiasmo das compras, pararam junto àquela loja, diante da moça de faces rosadas que, em largos gestos dos braços e das pernas, polia os vidros, ora em baixo, junto ao empedrado da calçada, ora no cimo, elevando-se no ar como que por magia!
Para encontrar a explicação do que julgavam ser um truque ou uma ilusão de óptica, as pessoas começaram a entrar na loja, a fazer perguntas, e a comprar.
Depressa a proprietária da loja, Dona Dália, se apercebeu da fantástica qualidade de Rosa Branca, e passou a mandá-la para a entrada, para lavar as montras e as portas, assim atraindo enorme clientela.
Aproximava-se o Natal, e a Dona Dália vendia como nunca. Estava satisfeitíssima, e pôde mesmo aumentar o ordenado da sua jovem empregada, que também não cabia em si de contente. Afinal de contas, ganhava o necessário ao seu sustento, e conseguia ainda contribuir para as despesas da sua prima Margarida, sobrando-lhe algum dinheiro, que enviava para os pais, lá na Aldeia.
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III
Passados o Natal e a euforia das Festas, que haviam transformado a Grande Avenida num verdadeiro salão recoberto de enfeites luminosos de várias cores e inundado de gente e música, começou Rosa Branca a sentir-se cansada do serviço.
Na verdade, para quem dantes voava, montanha acima, montanha a baixo, e corria pelos campos fora, desafiando as nuvens, limitar-se agora a subir uns quantos metros tornava-se deveras aborrecido.
Também, diariamente eram apresentadas à jovem novas propostas de emprego, pretendendo dar uso à sua estranha capacidade. Grandes empresas desejavam contratá-la como paquete, para dentro dos arranha-céus de cinquenta andares transportar rápida e eficazmente documentos importantes, sem necessidade de utilizar os sempre superlotados e vagarosos elevadores. Circos famosos pretendiam exibi-la em magníficos espectáculos, atravessando em gigantescas passadas as enormes tendas de lona...
Só que nenhuma destas ofertas Rosa Branca considerava, pois sabia - e só ela o sabia! - que os seus braços, as suas pernas, o seu corpo, não voavam, qual pássaro: era, sim, o vento que a tomava e levava. Debaixo de um telhado ou abrigada entre paredes, a moça era exactamente igual a todas as outras, nada de especial a diferenciando.
Pensava Rosa Branca no rumo a dar à sua vida, quando certo dia a Dona Dália apareceu na loja a chorar. O seu filho Jacinto estava muito doente, e os médicos afirmavam que apenas o poderia salvar um remédio muito raro, existente numa única cidade do mundo: a Cidade do Nascer do Sol, que ficava exactamente do outro lado da Terra.
Dada o urgência em conseguir o medicamento, e a distância a que este se encontrava, parecia impossível que o rapaz tivesse salvação. Mesmo de avião, a viagem de ida e volta levaria muitas e muitas horas, com que Jacinto não podia infelizmente contar.
Rosa Branca, perante a pobre mãe chorosa, sentiu o coração saltar-lhe no peito, enquanto os olhos lhe ganhavam um brilho especial. Havia uma solução! Só havia uma solução! Correr até à Cidade do Nascer do Sol e trazer o medicamento para Jacinto!
Rosa Branca e o vento tinham, desta vez, uma missão importante. Não se tratava simplesmente de levar carneiros para o pasto, ou de entreter transeuntes na Grande Avenida. Agora, havia uma vida para salvar!
Tendo fixado o endereço do Hospital onde se encontrava o remédio salvador, e estudado o percurso a seguir, Rosa Branca pôs-se a caminho, arrastada pelo vento.
Pés na estrada, mochila às costas, inspirou profundamente e avançou. Logo o vento respondeu, assobiando, primeiro muito suave, muito terno, depois fortalecido em rajadas sibilantes que faziam a menina percorrer extensões enormes, impensáveis, ultrapassando planícies e rios a que se seguiam montanhas e cordilheiras, oceanos e continentes. Os alísios ajudavam, correntes intensas tornavam-se cúmplices na aventura - a menina seguia de vento em popa. E se das estradas se aproximava, os condutores ficavam a observá-la, boquiabertos perante os seus cabelos ao vento, o seu olhar fixo no horizonte, os seus pés velozes mal tocando o chão.
Rapidamente, Rosa Branca atingiu a Cidade do Nascer do Sol, encontrou o Hospital, tomou em suas mãos o medicamento precioso e guardou-o cuidadosamente na mochila. Sem esperar, acenou adeus aos doentes que haviam acorrido às janelas do edifício e, sorrindo, lhe desejavam um bom regresso. Rapidamente murmurou:
- Amigo vento, regressemos agora!
Logo o vento, para espanto de todos - e principalmente dos marinheiros que na baía orientavam as suas velas -, logo o vento mudou de feição, passando a soprar na direcção da Grande Cidade. E a moça, abrindo os braços, reiniciou passadas imensas pelo ar.
Ao entardecer Rosa Branca chegava à Grande Cidade e entregava à Dona Dália o remédio, que esta de imediato dava de beber a Jacinto. Com o olhar brilhante e as faces coradas, o rapaz engoliu o líquido dourado que a menina trouxera. Depois, com os olhos, muito escuros, pousados em Rosa Branca, murmurou apenas:
- Obrigado!
Toda a noite Rosa Branca ficou junto de Jacinto, acompanhando o seu sono inquieto. O vento assobiava, insistente, pelas frestas das janelas e das portas, com uma energia colossal. Finalmente, pela manhã, Jacinto acordou sem febre, sorriu e tomou o caldo que a mãe lhe preparou. O pior já passara - Jacinto estava salvo.
Cansada mas tranquila, Rosa Branca saiu para o sol e deixou-se levar pelo vento até casa.
Surpreendida, viu-se rodeada de pessoas que a seguiam no seu caminho. Saudavam-na, agradeciam-lhe, faziam festas ou pedidos. Outros, tiravam-lhe fotografias e imploravam autógrafos. Em suma, Rosa Branca tornara-se famosa pelo seu feito.O vento amparava-a como sempre, mas agora muito meigo, quase apagado, consciente do seu cansaço, do seu espanto, lendo-lhe no olhar o tal brilho que ninguém mais sabia explicar.
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IV
Durante os dias seguintes, os jornais, a rádio e a televisão não se cansaram de publicitar as estranhas qualidades de Rosa Branca, que correra e voara qual foguete espacial. Todos queriam entrevistas, uma resposta, uma palavra que fosse, um sorriso. Rosa Branca, a jovem pastora, era um fenómeno!
Cansada de tanto alarido, a moça regressou à Aldeia dos pais.
Junto à montanha reencontrou, cheia de felicidade, o seu cão, as ovelhas, as ervas mais verdes e tenras do alto. Ali tudo permanecia como dantes. Ao alvorecer o galo cantava. Logo cedo havia que tratar dos animais. Nas subidas pela encosta, com o rebanho e o vento, encontrava renovado prazer.
Certa tarde, andava Rosa Branca pelos campos e sentiu a chegada de um automóvel. Nele vinha Jacinto, já completamente recuperado da doença. Queria agradecer-lhe a sua cura. E a moça levou-o a passear pelas encostas da montanha e junto ao ribeiro.
Muito conversaram Rosa Branca e Jacinto, e a pastora confidenciou ao rapaz o seu segredo.
No cimo do monte, observando juntos a imensidão dos céus e os cúmulos enormes que avançavam, tridimensionais, brancos e magníficos, Jacinto sentiu também o vento no interior de si. E mais não foi necessário para que de mãos dadas viajassem os dois, cheios do ar puro das alturas, tão majestosos como as nuvens do céu.
Para Rosa Branca e Jacinto o futuro estava traçado. O vento unira-os e nada podia separá-los.
Casaram na Aldeia, numa festa que reuniu a família e os amigos. Depois partiram, felizes.
Agora vivem em África, onde se dedicam a auxiliar as populações pobres e isoladas. Transportam e distribuem notícias, livros, alimentos, água e medicamentos. Nas escolas e hospitais sitos nos mais recônditos locais do continente africano, os seus nomes soam a esperança. Pela savana são familiares as suas figuras esvoaçantes.
Sem a intervenção da televisão e dos jornais, os actos de Rosa Branca e Jacinto não são dados a conhecer ao mundo, mas ficam guardados, com eterno reconhecimento, no coração das crianças, mulheres e homens a quem ajudam.
De quando em quando Rosa Branca e Jacinto voltam à Aldeia, com os seus filhos, Jasmim e Violeta.
Pela tarde, brincando com o cão ou colhendo flores amarelas na montanha, todos voam com o vento!
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domingo, 12 de julho de 2009

O MENINO RABINO, história de Ilona Bastos


Era uma vez um Menino Rabino que não parava de falar. Falava sozinho. Falava aos pássaros, que lhe respondiam em alegre chilrear. Falava às flores, que encenavam danças ao vento. Falava ao próprio vento, que desconversava em rabanadas vigorosas. E por vezes falava às pessoas, que o ouviam, surpreendidas, não entendendo as suas palavras. Então, o Menino esbracejava, lançando os pequenos punhos ao ar, para em seguida os baixar e continuar o seu caminho.
Por tudo se interessava o Menino, de olhar irrequieto, observando, tacteando com os seus deditos gorduchos, depois atirando: a bola em que pegara; o carro dos bombeiros, buzinando, estridente; o coelho de peluche, de dentitos atrevidos; a revista rasgada, salpicando a cor dos anúncios pelo chão da sala.
Que intrigante, o Menino Rabino! Meiguinho, de acariciar na maciez das suas bochechinhas coradas ou no dourado do seu cabelo suave. E falador, sempre, sempre. Se alguma coisa lhe diziam, o Menino Rabino, com os olhos redondos, malicioso, sorria, e logo iniciava o seu discurso próprio, com palavras que só ele conhecia, muito enfáticas, veementes, exclamativas!
Certo dia, foi o Menino ao campo. Brincou com os esquilos descarados que de árvore em árvore saltitavam, surripiando nozes. Banhou-se no lago, por entre os reflexos dos raios solares e o luzir das escamas dos peixinhos vermelhos. E arranjou um amigo. Era um sapo pequenino e verde, que lançava "croacs e crancs" à sua volta, com surpreendente energia.



Curioso, o Menino Rabino pegou no sapinho e, com uma habilidade insuspeitada, a que deu auxílio a vontade do engraçado batráquio, meteu-o dentro de uma caixa de plástico que transportara os pães para o piquenique.
De regresso a casa, sem chamar a atenção sobre o seu companheiro de viagem, veio o Menino Rabino, bem-comportado, empoleirado no estofo do automóvel, espreitando as árvores que à beira da estrada com eles se cruzavam - alongadas nuvens de verde brilhante - a grande velocidade.
No seu quarto, encontrou o Menino adequado recanto para o visitante que, maravilhado, o olhava. Do jantar, comido em silêncio, retirou uma malga de água que para o esconderijo levou, à socapa. E ninguém desconfiou de nada, pese embora o facto de o Menino não falar, o que não era seu hábito.
Com o amigo, no quarto, também a conversa não era necessária. Por estranho que pareça, bastava um sorriso, um gesto, um olhar, e logo se entendiam. Tudo estava dito.
O sono da noite foi bom para os dois que, já depois de apagada a luz, a janela aberta, a cortina afastada, olharam as estrelas até tarde. O cantar dos grilos fez-se nítido por entre o ladrar dos cães, ao luar. Soltaram ainda pequenas gargalhadas a respeito de uma borboleta nocturna que, desastrada, dava turras num candeeiro de rua. Chegaram mesmo a sentar-se no parapeito baixo, de rés-do-chão, e espreitar os ratitos pequenos que rapidamente atravessavam a relva.

Finalmente, adormeceram, felizes.
No dia seguinte é que foi a verdadeira surpresa. Não por causa do sapinho, naturalmente, que se escondeu, por quaisquer artes mágicas, e não foi encontrado. O espanto estava no Menino, que não falava. Sim, de tão falador que era, tornou-se silencioso. E no entanto, não estava triste. Continuava a mostrar interesse por tudo, mas um interesse mais recatado - como direi? - mais sério, como que mais importante. Tão importante que nem dava resposta à mãe quando lhe perguntava se queria leite, ou pão, de que tanto gostava. E, de corrida para o quarto, lépido, ocultando um sorriso matreiro por entre as mãozitas fechadas em concha, acabava na risota com o seu amigo sapinho.
Rebolavam, a rir, sobre a manta azul que cobria o chão. O Menino Rabino tinha um segredo e ninguém o sabia. E o sapito, tão esperto que era, não se deixava apanhar.
Quantas brincadeiras, às escondidas, no quarto! E depois, durante a noite, a ousadia de saltar para a relva e jogar à apanhada, saltitando por entre as árvores do jardim. Estando mais fresco, enfiavam gorros, cabeças abaixo, e cobriam-se com mantas. Quando aquecia, salpicavam-se com a água que o Menino Rabino trouxera da cozinha, ou esgueiravam-se até à mangueira, esquecida no pátio.
Bom, o tempo foi passando, e um belo dia, sem avisos nem despedidas, o sapinho desapareceu. Isso mesmo. O Menino chegou a casa, vindo da escola, e procurou o seu amigo: debaixo da cama, onde às vezes gostava de descansar; em cima do armário, onde se acomodava para o surpreender; rentinho à cómoda, junto aos automóveis, onde frequentemente meditava. E nada. O sapinho não estava lá - apenas a janela aberta.
Ágil, o Menino saltou o parapeito, e tudo lhe pareceu diferente. Não pior, nem mais feio. Somente diferente. Do sapinho, nem sombra.
Ao fundo, rosadas, as nuvens pincelavam tonalidades lindas ao pôr do sol. Alguns pássaros chilreavam. E foi então que o Menino percebeu. Ou melhor, não percebeu!
Não percebeu o que os pássaros diziam. Em contrapartida, o seu canto... Que melodia!
Uma leve brisa soprava, e ao Menino soou a vento, vento agradável e fresco, mas que nenhuma mensagem lhe trazia.
As flores fechavam-se, ao cair da noite sem lhe contar as novidades do costume, que o faziam sorrir. Porém, a cor das suas pétalas encantou o Menino, que as achou encantadoras, nas suas roupas de festa!
O Menino voltou a trepar à janela e entrou no quarto. Por momentos, a ausência do sapinho, seu companheiro, tomou-o de melancolia. Mas foi só durante dois segundos!

Rapidamente, correu para a porta, atravessou o corredor e entrou na sala, onde a mãe punha a mesa, sem palavras, já acostumada aos silêncios do filho.
Então, o Menino Rabino - mais menino, mais rabino do que nunca! - correu de bracitos estendidos para abraçar a mãe.
- Mãe! Mãe! Amanhã vamos dar um passeio ao campo, está bem?
E a mãe percebeu!
A partir desse dia o Menino voltou a falar. Só que de uma maneira diferente: não falava sempre, mas sempre que falava todas as pessoas o entendiam.
Também o compreendeu o sapinho, nosso conhecido, quando o Menino Rabino o reencontrou, meses mais tarde, numa patuscada com os pais à beira do lago. Chefe de família ajuizado, já não soltava à toa os seus “croacs e crancs", mas ao Menino Rabino cumprimentou com grande alegria. Juntos, recordaram as brincadeiras passadas, e ainda soltaram umas belas gargalhadas.
Não se espantem por o sapinho compreender o menino agora que ele falava como todas as outras pessoas. É que os amigos, independentemente da língua que utilizem, sempre se entendem!
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domingo, 28 de junho de 2009

A PARTIDA, história de Ilona Bastos


A Lili e a Lóló são duas meninas iguais. Têm os mesmos olhos castanhos e meigos, as mesmas bochechas rosadas, as mesmas boquinhas redondas e vermelhas.
A Lili e a Lóló são duas gémeas verdadeiras, e se não fosse por um pequeno pormenor ninguém conseguiria distingui-las: a Lili tem o cabelo liso, e a Lóló tem caracóis.
Mesmo quando a mãe as veste de igual, com uns vestidinhos curtos aos folhos e às flores coloridas, logo as vizinhas as diferenciam: a Lili, pelo cabelo sedoso e solto, caindo-lhe leve sobre os ombros; a Lóló, pelos caracóis redondinhos, aos cachos, que lhe emolduram a carinha simpática.
A Lili e a Lóló são muito traquinas e adoram pregar partidas.
No mês passado planearam enganar as amigas, fazendo-se passar uma pela outra.
- É simples! - disse a Lili à Lóló. - Basta trocarmos de penteados quando formos à festa da Joana.
A Lóló olhou para o espelho e tocou nos caracóis.
- Com uma escova e o secador posso tornar o meu cabelo bem liso. - disse ela.
- Com uns rolos e algum gel encho-me de caracóis. - resolveu a Lili.
Tão bem foi guardado o segredo que nem a mãe desconfiou. E a prática de esticar e enrolar os cabelos das bonecas mostrou-se preciosa no momento de meter mãos à obra.
- Que tal estou, Lili? - perguntou a Lili à Lóló, já com a cabeça coberta de caracóis.
- Óptima, Lóló! Aliás, como eu, não é verdade? – respondeu a Lóló à Lili, entusiasmada com o esvoaçar do cabelo liso junto ao pescoço.
O plano estava a correr às mil maravilhas, e muito haviam de se rir as gémeas quando as amigas percebessem como tinham sido enganadas!
A Lili e a Lóló vestiram as saias castanhas, escolheram as blusas amarelas e calçaram os sapatos de festa.
- Muito bem, meninas! - aprovou a mãe, com um sorriso carinhoso - Estão muito bonitas! Mas não se esqueçam dos guarda-chuvas, porque está a chover muito, lá fora...
As gémeas trocaram um olhar cúmplice, e tiraram os chapéus do bengaleiro. A Lili trouxe o guarda-chuva vermelho, da Lóló. A Lóló trouxe o guarda-chuva azul, da Lili. E seguiram a mãe até ao automóvel, onde se instalaram, muito satisfeitas.
Já sentada ao volante, a mãe, de repente, voltou-se para trás.
- O que se passa? - perguntou, surpreendida. – Hoje resolveram trocar de guarda-chuvas?
As gémeas coraram.
- Ó mãe, como é que descobriste?! - gritaram, em coro.
- É claro como água! - exclamou a mãe, soltando uma gargalhada.
A Lili e a Lóló olharam-se no espelho retrovisor e tudo compreenderam. Fora a chuva, traiçoeira, que num minuto encaracolara o tão esticado cabelo da Lóló, e esticara o tão enrolado cabelo da Lili.
Com a água é que as gémeas não tinham contado!

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segunda-feira, 15 de junho de 2009

O BALÃO VERMELHO, história de Ilona Bastos


Era uma vez um Balão Vermelho. Era redondo, de borracha e pequeno.

Um belo dia, o Balão Vermelho foi embalado, juntamente com noventa e nove irmãos de todas as cores, numa caixa de cartão canelado. E, assim acomodados, os cem balões foram parar à loja da esquina, uma pequena tabacaria pertencente à Dona Celeste.

Certa tarde, aproximando-se o aniversário do Francisco, os pais decidiram fazer-lhe uma grande festa. Com antecedência, planearam todos os detalhes, não esquecendo as guloseimas, os chapéus em forma de cone com desenhos divertidos, as estridentes cornetas, cornetins e familiares e, naturalmente, os balões.

Na loja da Dona Celeste encontraram, maravilhados, a caixa dos cem balões. Eram balões de todas as cores: amarelos como o sol; rosados como pétalas de flores; verdes como a relva pela manhã; azuis como o céu e o mar; vermelhos como as papoilas do campo...


Escolhendo um e outro, pegando neste e naquele, o pai e a mãe do Francisco reuniram, satisfeitos, um bouquet de vinte balões. E - já todos adivinhámos, não é verdade? - entre os balões comprados para a festa do Francisco encontrava-se o nosso amigo Balão Vermelho.

Para ele, sair da caixa de cartão canelado foi uma revelação. Quanto espaço, quanto ar!
- Sou livre! - pensou, cheio de felicidade.

Deixada a loja, o Balão, impaciente, não se continha, e, espreitando pela dobra mal colada do pacote de papel, debruçava-se para o empedrado da calçada. Com rapidez - a velocidade dos passos enérgicos do pai do Francisco - ultrapassava as vitrines de uma capelista, repletas de botões, tecidos e linhas de diferentes tons e texturas. De seguida, deslumbrava-se com o colorido fresco dos legumes, das alfaces e das frutas, expostos em caixotes arrumados à porta de uma mercearia.

Era um festival de cores e de vida!

Tão excitado se encontrava o Balão Vermelho que nem deu pelo chegar a casa e o ser arremessado para dentro de um saco de plástico, em cima de uma cadeira.

Com o coração a bater depressa, aí se deixou ficar, saboreando a maravilhosa sensação de liberdade que o invadia.
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Uma noite se passou - a da grande expectativa!

O Francisco, claro, sentia enorme ansiedade em relação ao seu aniversário, aos presentes e à festa com os primos e os amigos, que já imaginava a rir e a correr, felizes, pela casa fora. Para os pais do Francisco havia o cuidado em bem receber os convidados no seu lar, que queriam o mais acolhedor possível. E, quanto ao Balão Vermelho, inundava-o a embriaguês do renascer e o sentir que um destino maior o convidava, de longe, do horizonte.

Mas, continuando a nossa história, será aconselhável passarmos imediatamente ao reboliço da festa de aniversário do Francisco.

Como é costume nestas ocasiões, em cima dos aparadores havia jarras com cravos vermelhos e gipsófilas. Na mesa fora estendida uma toalha branca e, sobre ela, espalhados copos e pratos coloridos, palhinhas riscadas, guardanapos cobertos de desenhos, batatas fritas, pipocas doces, salsichas e gelatinas de diversos sabores.

E havia os convidados, naturalmente. Traziam fatos novos e presentes de vários tamanhos - surpresa! - embrulhados em papéis brilhantes e enfeitados com belas fitas e laços.

As meninas, usando vestidos rodados e aos folhos, e os rapazes, de calções e vinco a preceito, todos com o cabelo cuidadosamente penteado - primeiro, tímidos, depois, ousados - corriam por entre os adultos, bem dispostos, perseguindo carros, bolas e balões, os balões redondos, de borracha e pequenos.

Deu-se aqui um acaso misterioso. Acompanhando as gargalhadas das crianças, pelo ar esvoaçavam balões amarelos, verdes, rosados e azuis. Porém, o Balão Vermelho ficara esquecido dentro do saco de plástico.

Ansioso, espreitando do seu canto, o Balão não compreendia por que razão todos os seus irmãos bailavam de mão em mão, enquanto ele se via ignorado, abandonado... Sentia-se confuso e triste, mas tentava consolar-se, murmurando:

- Já falta pouco! Já falta pouco!
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Falta pouco para quê, Balão Vermelho? Nem ele o sabia. Contudo, de olhar atento, absorvia o alvoroço em redor, ciente de que o seu momento não tardaria. Avistou as crianças, no quarto do aniversariante, entusiasmadas com os brinquedos e os jogos. Depois, conseguiu ouvir o silêncio que antecedeu o cantar do Parabéns a Você, na sala de jantar. Adivinhou o soprar das velas, o cortar do bolo, e apercebeu-se da despedida de cada convidado, com a entrega de um saquinho de guloseimas, acompanhada de agradecimentos efusivos pela festa tão divertida.
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O dia, que a família vivera com tanta alegria, chegara ao fim. Deitado o Francisco entre lençóis de flanela, aninhado em sonhos risonhos, pela casa restavam apenas pedaços de papel de embrulho e farrapos de balões rebentados no calor da brincadeira.

O Balão Vermelho encostou-se bem ao fundo do saco, suspirou, desanimado, e adormeceu. E, assim, outra noite se passou.
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Na manhã seguinte, o Balão Vermelho ficou abismado quando a persiana foi levantada. À luz do sol, o quarto assemelhava-se a um campo de batalha. Por todo o lado havia brinquedos. Bonecos, carros, bolas e jogos electrónicos espalhavam-se descuidadamente pelo chão e pelos móveis. Dos balões, nenhum restava inteiro.

Com os olhos ainda ensonados, os passos leves, os pés calçados em meias de lã, o Francisco começou a percorrer o quarto, atento, em busca de novidades.

Foi então que encontrou o saco de plástico com o pacote de papel, num canto da cadeira. Investigou o seu interior e de lá retirou, eufórico, o Balão Vermelho. Uma onda de alegria inundou o rosto do menino.

- Olha o Balão Vermelho! Então, maroto, como é que ontem conseguiste escapar? Deixa lá que já te vou encher!

- Enche, enche depressa! - pensou o Balão, radiante.

Mas os pais do Francisco não se mostraram de acordo, e foram bem claros:
- Agora, que és mais velho, precisas de assumir as tuas responsabilidades. Arruma primeiro o quarto, para depois poderes ir brincar. Estamos a pensar dar um passeio no parque para assistirmos à passagem dos balões. O que te parece?

- Óptima ideia! - aprovou o Francisco.

Sobressaltado, o Balão Vermelho quase gritou:
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- Balões? Balões?! Também quero ir!

Num ápice, o Francisco arrumou os jogos no armário, os livros na estante, os carros na garagem e os bonecos nos seus respectivos lugares.

Mais tarde, lavado, vestido e com o pequeno-almoço tomado, o jovem Francisco pegou no seu Balão Vermelho, encheu-o, e, orgulhoso pelo trabalho bem feito, acompanhou os pais até ao parque.

Na verdade, estava uma manhã linda, com o céu muito azul e o sol a brilhar. Exactamente daquelas manhãs em que aos meninos salta o pé para a brincadeira, ao mesmo tempo que uma vozinha afoita lhes segreda ao ouvido: “Vem, vem correr na relva. Estão todos à tua espera para jogar à apanhada!”.

O parque encontrava-se cheio de gente naquela manhã de Domingo. Na televisão haviam anunciado a passagem dos balões de ar quente provenientes de um Festival organizado numa cidade vizinha. E tinham mesmo aconselhado a população a deslocar-se ao parque, onde, melhor que em qualquer outro local, poderia ser observado o espectáculo sem que os edifícos altos ou outras construções impedissem a visibilidade.


O Francisco estava muito entusiasmado e não parava de pular e correr, agitando no ar o Balão Vermelho, que partilhava da alegria do rapaz.

Por momentos, o Balão chegava mesmo a libertar-se dos dedos do menino, e então sentia-se erguer, leve como uma pena, inebriado com a aragem que o fazia balançar, planar um pouco, e finalmente o restituía às mãos expectantes do seu dono.

De repente, um grito ecoou pela multidão que, num só gesto, ergueu o seu olhar para o horizonte.
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- Hei-los! Vêm aí os balões!
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Realmente, avistavam-se já algumas longínquas figuras coloridas de contornos mal definidos.

Inicialmente esbatidos, contra o azul do céu os balões de ar quente iam ganhando forma e cor à medida que se aproximavam empurrados pelo vento. As suas cúpulas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, redondas e luminosas, aumentavam gradualmente de tamanho e fascínio. Enquanto distantes, assemelhavam-se a brinquedos antigos, representados nalguma estampa de fim de século, mas ao perto transformavam-se em espantosas naves, enormes e arrojadas, transportando, nas suas barquinhas, destemidos aventureiros.

A liderar o desfile, um majestoso balão aos gomos cor-de-laranja, verdes e amarelos, ganhava velocidade. Logo à esquerda se aproximava outro, branco, radioso, com desenhos roxos e vermelhos. Já da barquinha de um terceiro, em tons de azul, uma silhueta humana acenava animadamente, a cabeça debruçada, os braços abertos, no ar.


E de cá de baixo, do meio da multidão, o Francisco e o Balão Vermelho exultavam:

- Eu quero ser balonista! - exclamava o rapaz, eufórico. - Quero viajar num balão e dar a volta ao mundo.

O pai sorriu.

- Sim, isso é possível, quando cresceres. E olha que há um português cujo nome está ligado à invenção dos balões, dos aeróstatos: Bartolomeu de Gusmão...

O filho agitou-se ainda mais e repetiu, atirando o Balão Vermelho ao ar:

- Sim, quero ser balonista... quando crescer!

- E eu quero ser balão... agora! - gritou o Balão Vermelho, aproveitando o impulso e ganhando altura.

Acabara de perceber por que motivo não participara na festa de aniversário do dia anterior. Compreendia também por que razão fora poupado, contrariamente ao que acontecera com os seus irmãos, tão rapidamente desaparecidos. Ele era diferente, porque um destino maior lhe estava reservado: na companhia destes seres grandiosos, daria a volta ao mundo, sobrevoaria cidades, vilas, aldeias, bosques e montanhas, mares, rios e desertos!

Uma rajada de vento fê-lo subir uma dezena de metros e, de cima, baixou o olhar para o parque, onde o Francisco estendia os braços à espera de o receber.

- Adeus, Francisco! - murmurou o Balão, enternecido - Gostei muito de te conhecer. Mas, agora, sigo o meu destino.

Voltou-se para cima e corou de entusiasmo e pura felicidade. Quanto mais feliz se sentia, mais subia e se aproximava dos outros balões.

- É engraçado! - pensou ele, observando os seus companheiros de viagem. - Os meus irmãos levam um chama gigantesca que aquece o ar e os faz elevarem-se até às nuvens. Mas, a mim, o que me faz voar é a felicidade!

Perante tal descoberta, deu uma gargalhada que o empurrou para grande altitude, como se levasse um foguete no rabo.

Sem parar de rir, aproximou-se de um balão colorido como um carrossel e piscou-lhe o olho. Seguidamente, chegou-se a outro, vermelho às pintas pretas, parecido com um gigantesco morango, e comentou, amavelmente:

- Hoje está um belo dia para viajar!

Mas o balão não disse nada, afastando-se.

O Balão Vermelho passeou por entre os balões imponentes, sem conseguir que lhe falassem. Eram perto de vinte balões de ar quente, mas seguia cada qual a um nível diferente, e não trocavam palavras entre si.

Finalmente, o nosso amigo alcançou o balão da frente, o dos gomos cor-de-laranja, verdes e amarelos, que parecia ser o líder e que de imediato se lhe dirigiu:

- Sou o comandante Citrino, e vejo que o meu pequeno amigo é muito falador - começou ele, numa voz que impunha respeito. - Ora isso não é bom para quem tem uma viagem tão longa para fazer como aquela em que nos encontramos. A conversa esgota-nos as energias e distrai-nos.

- Mas então esta viagem não é um passeio? - perguntou o Balão Vermelho, surpreendido.

- Evidentemente que não! - respondeu o comandante, com firmeza. - Vamos em missão, meu rapaz. Cada um de nós transporta, na sua barca, pessoas que nos confiaram as suas vidas, e é nossa tarefa levá-las sãs e salvas ao seu destino. O que não é nada fácil, devo dizer-te.
O Balão Vermelho ficou tão espantado que perdeu um pouco de altitude e teve de fazer um esforço para acompanhar o Citrino.

- Não é mesmo nada fácil - continuou o comandante. - Temos de estar atentos aos ventos e ao peso do ar... Enfim, precisamos de muita disciplina, concentração e esforço para bem executarmos o trabalho que nos foi confiado e para não desiludirmos os nossos valorosos tripulantes.

- Sim, realmente é preciso coragem para voar pelos céus! - concordou o Balão Vermelho, logo acrescentando - E a vossa tarefa parece-me extremamente complicada...

- Claro que o teu caso é completamente diferente - interrompeu o Citrino. - Não tens ninguém para transportar, nem trazes ar quente no teu interior. Afinal, o que é que te faz voar?

- A felicidade - respondeu o Balão Vermelho, quase sem pensar.
- A felicidade?! Trazes felicidade no teu interior e, assim, elevas-te no ar? É certo?
- Sim, é isso mesmo que acontece - confirmou o Balão Vermelho, risonho.
- E a tua missão é...?

O Citrino ficou à espera que o Balão terminasse a frase, mas este permaneceu calado. Foi ainda o comandante que concluíu, com o ar decidido de quem dá a conversa por encerrada:

- Bom, já percebi que o que te faz voar é a felicidade. Sim, senhor! Então, se me dás licença vou dedicar-me a uma manobra delicada, porque se aproximam ventos de sudoeste. Boa sorte!

Como anunciara, o Citrino inclinou-se majestosamente e mudou de rumo, no que foi seguido por todos os demais balões de ar quente.

O Balão Vermelho sentiu-se só pela primeira vez desde que subira ao céu. Desceu um pouco e baixou o olhar, procurando o Francisco. Contudo, o menino já não se avistava, nem o parque, nem mesmo a cidade.

O diálogo com o Citrino distraíra o Balão Vermelho ao ponto de este não mais saber onde se encontrava, e isso deixava-o um pouco ansioso. Por outro lado, as palavras do enorme balão de ar quente sobre a sua missão, e a resposta que ele próprio tão espontaneamente lhe dera, intrigavam-no. Sentia-se confuso, exactamente como às vezes nos acontece: estamos convictos de que arquitectámos uma ideia simplesmente brilhante, mas não conseguimos explicá-la; sabemos que uma palavra nos está debaixo da língua, pronta para a dizermos, e no entanto foge-nos no preciso momento em que desejamos pronunciá-la...

Pois o Balão Vermelho, embora soubesse que o seu destino não estava ligado ao dos balões de ar quente, e sentisse a imperatividade da missão que lhe cabia, não conseguia ainda precisar a sua natureza. Chegou a fazê-lo sorrir a ideia de que pudera julgar-se igual àqueles matulões gorduchos que agora se afastavam a toda a velocidade em direcção às montanhas! Não, ele era realmente diferente: não o movia o ar quente, mas sim a felicidade - como tão prontamente informara o decidido Citrino - e a sua missão consistia em... em... qualquer coisa que o Balão sabia esconder-se no seu coração, mas que tinha dificuldade em expressar...

Entregue a tais pensamentos, o Balão foi-se deixando levar pelo vento. Sentia-lhe a carícia suave e entregava-se-lhe confiadamente.

E assim foi voando, e descendo, notando a aproximação das estradas, dos prédios e das árvores. Sobrevoou um campo inculto e sujo, alguns caminhos poeirentos e um conjunto de construções baixas e escuras, que compreendeu serem barracas.

Pairando sempre, observou várias pessoas, de aspecto pobre, que se reuniam junto à porta de uma das casas, e notou um vulto franzino e ágil que se afastava do grupo e que erguia para o céu um olhar de espanto e de esperança.

O Balão Vermelho fixou a sua atenção naqueles olhos grandes, castanhos, profundos. E deixou-se cair. E, à medida que caía, nascia um sorriso no olhar límpido que o atraía. Era um sorriso que se espraiava pelos lábios e pelas faces da criança, iluminando-lhe todo o rosto e inundando também de um brilho especial o corpinho magro de pés descalços e o vestidinho verde, desbotado, que o cobria.

A menina, que se chamava Célia, estendeu os dois braços, festivos, no impulso de uma pequena gargalhada. E o Balão Vermelho, com ternura, pousou suavemente nas mãozinhas doces, erguidas para o receber.

Nesse exacto momento, o Balão Vermelho sentiu que chegara ao seu destino e soube qual era a sua missão!

Pouco depois, voando, saltando, deslizando por entre as crianças da rua, dançando ao som dos seus risos e falas, rodopiando sobre a poeira, como um sol magnífico, irradiava sobre todos uma imensa Felicidade.



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