domingo, 22 de maio de 2011
UM RELÓGIO FIXE, história de Ilona Bastos
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O PÃO-DE-LÓ, história de Ilona Bastos
Pela manhã, a mãe do David levantou-se, de caracóis revoltos, lavou as mãos e correu à cozinha.
Aí, ferveu o leite, que deitou sobre o chocolate em pó, cortou uma gorda fatia de pão-de-ló, e tudo dispôs num tabuleiro, com uma palhinha vermelha e um alvo guardanapo de papel.
Depois, foi a vez de acordar o David, ensonado, recusando abrir os olhos.
- Bom dia, filhote! - cantou a mãe. - Vamos acordar.
O menino murmurou:
- Não...
- São horas de levantar! - disse a mãe, olhando o relógio.
O menino voltou-se na cama e resmungou:
- Não.
- Olha que tens de ir para a escola e não deves chegar atrasado! - lembrou a mãe, destapando o dorminhoco.
O menino fechou os olhos com força e agarrou-se aos cobertores:
- Não!
- Ai! Ai! - zangou-se a mãe. - Tu não queres acordar e lá dentro o pão-de-ló não pára de reclamar.
- O pão-de-ló? - perguntou o David, abrindo os olhos.
- Sim, o pão-de-ló - respondeu a mãe, expedita. - Não sei o que combinaste com ele, mas insistiu imenso em falar contigo, não me deixou sossegada, e agora está na sala, à tua espera...
- O pão-de-ló! - exclamou o menino, de olhar brilhante, sentando-se na cama.
Depois, sorriu, maroto, estendendo os braços:
- Ajuda-me, mãe. Tenho uma reunião importante, agora.
- Sim? – perguntou, a mãe, aliviada, entregando ao filho a camisa e as calças de ganga. - Tens uma reunião na escola, com a professora?
O David torceu o nariz e acabou por soltar uma gargalhada:
- Não, mãe, não! Na sala, com o pão-de-ló!
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
A CHUVA, história de Ilona Bastos
Naquele dia cinzento em que o Inverno chegou e fez o mercúrio descer nos termómetros, a mãe abriu a gaveta da cómoda e de lá retirou uma fofa camisola de lã às riscas.
- Toma esta camisola nova! - disse ela, entregando o agasalho ao filho, que o vestiu. - Hoje vais bem quentinho para a escola.
Pela rua fora, mãos nos bolsos, a assobiar, o Alexandre saiu cedo para as aulas, satisfeito e confortável dentro da sua nova camisola de lã.
E também a mãe ficou contente quando o menino, ao fim do dia, lhe contou que muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e que não tivera frio nenhum.
Então, a mãe lavou rapidamente a camisola e estendeu-a a secar, para o filho poder vesti-la no dia seguinte.
Aconteceu que nessa noite caiu uma bátega de água, e de manhã, quando a mãe quis apanhar a camisola, foi encontrá-la fresquinha, molhadinha e... com metade do tamanho - com a chuva, a bela camisola nova de lã encolhera!
- Que grande aborrecimento! - desabafou a mãe, espreitando pela janela. - E ainda por cima vai continuar a chover durante todo o dia, por isso é melhor levares a gabardina.
Lá seguiu o Alexandre para o colégio, radiante, de capuz enfiado na cabeça, dando pontapés nas pedras da calçada.
Quando regressou, no final da tarde, a mãe ficou aliviada ao verificar que o menino muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e não se molhara. Só os sapatos não se apresentavam no seu estado normal: estavam um pouco húmidos... ou melhor, molhados... bom, na verdade, estavam completamente ensopados!
- Rapaz! Rapaz! - exasperou-se a mãe - O que andaste tu a fazer?
E rapidamente descalçou o menino, colocando os sapatos junto do aquecedor.
No dia seguinte, pela manhã, a mãe tentou calçar o Alexandre. Mas os sapatos, marotos, recusavam-se a deixar os pés entrar, empurrando-os para fora - com o banho e a secagem, os sapatos tinham encolhido!
- Que maçada! - queixou-se a mãe. - Esta chuva parece que não pára, e hoje terás de levar as botas de borracha.
Que prazer, para o Alexandre, caminhar sobre poças e pocinhas, chapinhando e saltando, espalhando água em redor. De gabardina e com botas, não havia chuva que lhe chegasse, e o menino sentia-se nas suas sete quintas!
Mas, ai dos meninos traquinas! Distraído como ia, o Alexandre não reparou num buraco, mesmo à entrada do colégio. Quis pular e espadanar e acabou estatelado, a tomar banho na lama.
Para que não se constipasse, a professora despiu-lhe a roupa molhada e vestiu-lhe calças, camisola e gabardina, que havia no colégio para estas ocasiões. Só que o Alexandre era pequeno, e a roupa era grande...
Bom, quando, ao entardecer, o menino voltou para casa, veio a mãe, ansiosa, recebê-lo à porta. E vendo a esvoaçante gabardina, bem abaixo dos joelhos, as largas mangas escondendo-lhe as mãos, lançou os braços ao céu e exclamou:
- Ai, meu filho! Desta vez foste tu que encolheste!
camisola - suéter
gabardina - capa de chuva
sábado, 21 de novembro de 2009
O AMÁVEL REFILÃO, história de Ilona Bastos
Um viandante é uma pessoa que coloca aos ombros a sua mochila carregada de coisas importantes - tais como a escova de dentes, o sabonete, o casaco e o chapéu - e vai viajar para terras distantes. Quero dizer, o viandante não passeia próximo da sua casa, da sua escola, ou do seu escritório. Ele toma um barco ou um comboio, por exemplo, e desce num local longínquo, que pode ser uma praia, um bosque ou uma cidade. Depois, não permanece aí durante muito tempo. Descansa um pouco, recolhe a bagagem, consulta o mapa, escolhe um destino e põe-se a caminho.
O viandante da nossa história, como todos os outros viandantes com quem se cruzava nas suas andanças, pouco parava. Contudo, destacava-se dos demais por duas características particulares: em primeiro lugar, por os pais, babosos do seu rebento, o haverem baptizado com o nome de Amável; em segundo lugar, por este nosso amável viandante ser, na verdade, um incorrigível refilão.
Estranha ironia, que um homem tão rezingão, tão pronto a encontrar defeitos em tudo e em todos, tivesse, afinal, o mais delicado dos nomes!
Sempre crítico, o viandante Amável saltitava, impaciente, de terra para terra, à procura do local ideal para viver. Porém, cada cidade que visitava lhe parecia mais desagradável do que a anterior, e a sua irritação não tinha limites.
É que ao viandante Amável agradavam as moradias de amplas janelas e belos jardins, mas desgostavam os altíssimos edifícios em betão que escureciam as ruas, tornando-as estreitas, húmidas e sombrias.
O viandante Amável apreciava os parques arrelvados, com árvores frondosas e lagos brilhantes que os patos selvagens e os pombos sobrevoavam em bandos. Mas horrorizava-o a pobreza dos bairros da lata, onde as crianças deambulavam ao frio e com fome.
O viandante Amável entusiasmava-se com as sensações de liberdade e de aventura que a velocidade lhe proporcionava. Mas desanimava-o a poluição libertada pelos tubos de escape dos automóveis.
Também dos teatros, dos cinemas e dos cafés gostava o viandante Amável. Mas sempre o deixavam indisposto os ruídos ensurdecedores das buzinas, das motorizadas, e até dos aviões que rugiam em constantes aterragens e descolagens.
Como não existiam cidades sem altos edifícios em betão, sem bairros de lata, sem poluição e sem ruídos, andava o viandante Amável permanentemente de sobrolho franzido, de um lado para o outro, a refilar, a refilar.
É claro que no início o viandante Amável reclamava com razão. Temos de reconhecer que nenhum de nós gosta da escuridão, da pobreza ou da poluição. Contudo, este viandante exagerava, acabando por ganhar o hábito de tudo criticar, nada aceitar, ao ponto de os amigos lhe terem posto a alcunha de Amável Refilão.
Para piorar a situação, o Amável Refilão também fugia das praias, esbaforido, irado com os turistas que lhe ocupavam o espaço e importunavam o descanso.
E das conhecidas estâncias de montanha nem se fala, que o punham furioso as conversas dos jovens ansiosos por deslizar, em esquis, pelas encostas cobertas de neve.
- Que disparate! - gritava ele, com os cabelos no ar e a cara vermelhíssima. - Não há sítio onde se possa viver!
- Esta terra chama-se Aldelizes - respondeu o homem.
- Aldelizes? Mas que nome mais disparatado! Onde já se viu... - continuou o Amável Refilão a protestar, sem dar oportunidade ao outro para explicar a razão de tão insólito nome.
Na verdade, a aldeia denominava-se Aldelizes por ser a Aldeia das Pessoas Felizes.
- Então, na sua estalagem não tem um quarto cor-de-grão com uma janela ampla voltada para um riacho onde nadam trutas salmonadas?
- Não. Tenho um quarto branco, com vasos de túlipas nas janelas que abrem para uma planície verdejante - respondeu o estalajadeiro, calmamente.
Quando o estalajadeiro abriu uma das portas, o corredor ficou completamente inundado de luz, como se um enorme candeeiro tivesse sido ligado. É que a porta dava acesso a um quarto extraordinariamente luminoso. Bem no centro do aposento, os raios de sol, que entravam pela janela aberta, reuniam-se alegremente e dançavam valsas ao sabor da aragem.
Por momentos, o viandante Amável teve mesmo que parar de resmungar, deslumbrado perante tão maravilhoso espectáculo.
Lentamente, pousou a mochila em cima da cama e aproximou-se da janela. Nunca ele avistara uma paisagem tão bela!
Até ao fundo, até ao horizonte, estendia-se uma magnífica planície, que era um campo liso, suave, sem montanhas nem declives, sem altos nem baixos - como um imenso campo de futebol, mas sem as marcações brancas e sem balizas, antes com vegetação abundante, plantas e árvores que formavam um mar verde e ondulante a brilhar ao sol.
Espantado, o viandante Amável abria a boca.
No entanto, recordando-se, subitamente, de que deveria sempre discutir, voltou-se para o dono da estalagem, franziu o sobrolho e, de nariz levantado, perguntou:
- Aqui não se almoça? Tenho de ficar com fome?
- O almoço está servido na cozinha - respondeu o estalajadeiro. E retirou-se.

O viandante Amável ficou só, no quarto, observando, agora com curiosidade, todo o aposento onde se encontrava. Como o estalajadeiro dissera, tinha paredes brancas e túlipas nas janelas. A cama, de madeira clara, erguia-se ao centro do quarto, ladeada por tapetes de linho cru, laboriosamente confeccionados ao tear. O armário, também de pinho, encostava-se a um canto, reflectindo a claridade do sol. A mesa de cabeceira e a cadeira, estáticas e silenciosas, quase ausentes, acomodavam-se em redor da cama.
Uma paz sem explicação invadiu o viandante Amável, que se lembrou de uma canção sobre flores e sobre andorinhas a voar.
Pois, tudo isto, que é tão simples e perfeito, sentia o viandante Amável, quase que sonhando.
Sem saber como, apenas com a intuição de que deveria alimentar-se, o viandante Amável deu alguns passos até à porta, rodou a maçaneta e saíu do quarto. Depois, fechou a porta e, repentinamente acordado, desceu a escada e dirigiu-se à cozinha, para almoçar.
Bom, já todos nós percebemos que o quarto do Amável Refilão era mágico. Só ele é que não sabia. Mas a verdade é que, por qualquer razão misteriosa, enquanto se encontrava dentro do quarto, o viandante Amável não tinha vontade de refilar. E isso era estranho - estranhíssimo! -, pois, como já expliquei, o viandante Amável passava a vida, toda a vida, mesmo, a reclamar.
Ora se queixava da comida, porque tinha pimenta a mais, ora das crianças, porque berravam e pulavam sem descanso. Ora se lastimava do sol, porque lhe queimava os olhos, ora da neve, porque lhe gelava os ossos...
Não havia dia, hora ou minuto em que o Amável Refilão não protestasse.
No dia seguinte, depois de passada a primeira noite no quarto mágico, o viandante Amável só com dificuldade conseguia encontrar defeitos para apontar. De quando em quando, se acaso se lembrava, lá fazia um esforço e uma crítica, mas sem grande convicção.
Pela segunda vez, pernoitou o viandante Amável no quarto mágico, e tais foram os sonhos, plenos de cores suaves e doces sensações, que ele acordou com uma disposição magnífica. Todo o dia, passou-o nos campos, ou junto ao riacho onde, afinal, lá encontrou, nadando com enérgica alegria, as trutas salmonadas.
Refilar? Só uma vez o viandante Amável o fez - e por dever, temente de perder a prática e o jeito.
Desperto, pela manhã, com o cantar dos pássaros, desceu à rua e visitou a aldeia: as suas casas brancas e jardins floridos; a escola, onde as crianças aprendiam as letras e os números; o hospital, onde os médicos receitavam tratamentos e curavam os doentes; o edifício dos bombeiros, onde estes limpavam os carros vermelhos, as mangueiras, e poliam os dourados; a igreja, emanando esperança, em mármore rosa, com imagens suaves esculpidas na pedra.

Tomou, então, uma decisão importante: passaria o resto da sua vida naquela aldeia.
Comprou um postal que retratava a planície e o resplandecer da sua folhagem. Endereçou-o à sua cidade de origem e escreveu: "Finalmente, sou feliz."
À noite, de regresso à estalagem, disse ao estalajadeiro:
- Já sei a razão por que a aldeia se chama Aldelizes.
E recolheu ao quarto.
Aos amigos que o visitam, leva-os a conhecer a estalagem, a planície, as ruas e o riacho. E cada um deles aprende e transporta, de regresso à sua cidade, um pouco do segredo da felicidade. De Aldelizes recebem um vaso com sardinheiras que, colocadas em floreiras, se espraiam pelas varandas e restituem às ruas a sua cor e alegria. Transportam ideias bem simples - qual ovo de Colombo! - que ajudam a resolver o problema da tristeza, da pobreza, da poluição. Recebem bolbos de túlipa, que o homem da nossa história, entusiasmado, não se cansa de elogiar. E os amigos sorriem quando o vêem assim, de olhar brilhante, feliz!
De Amável Refilão que era, passou a ser apenas Amável. E é assim que todos o conhecem em Aldelizes.
sábado, 10 de outubro de 2009
A MENINA ALFACINHA, história de Ilona Bastos
- Hoje vão ter uma nova colega!
Os meninos agitaram-se nas cadeiras, e o Francisco, o mais atrevido, perguntou:
- Como se chama a nova aluna?
A professora Dina procurou nos papéis, guardados num dossier, hesitou e voltou a sorrir:
- Bom... chama-se Almerinda Etelvina Engrácia Pancrácia da Silva... Mas os amigos tratam-na por Menina Alfacinha.
Toda a turma tornou a dançar sobre os assentos.
- Menina Alfacinha? Mas que nome mais engraçado!
- Já sei porque se chama Alfacinha! - gritou o Pedro, saltando. - É Alfacinha porque nasceu em Lisboa!
A professora Dina abanou a cabeça.
- Não! - disse ela. - A Menina Alfacinha não nasceu em Lisboa, nasceu em Sintra.
- Ah! - exclamou o Manuel. - A menina chama-se Alfacinha porque o seu clube de futebol preferido é o Sporting!
A professora Dina tornou a negar.
- Não! Na verdade, a Menina Alfacinha gosta muito de verde e até aprecia futebol, mas ainda não escolheu pertencer a nenhum clube em especial.
- Então a menina tem esse nome porque é ecologista - afirmou a Mariana, muito séria. - Gosta da Natureza e quer defendê-la.
A professora Dina, mais uma vez, largou a sorrir.
- Com certeza que a Menina Alfacinha gosta da Natureza e quer defendê-la, aliás como todos nós aqui na sala. Mas não é por isso que lhe chamam Menina Alfacinha.
- Diga, diga, professora! - pediram os meninos, em coro. - Porque é que a nova aluna se chama Alfacinha?
A professora Dina, mais do que sorrir, soltou uma verdadeira gargalhada.
- É que a Menina Alfacinha tem o cabelo verde!
- Ninguém tem o cabelo verde - disse o Rui, agarrado à barriga de tanto rir.
- Tem, tem! - respondeu a professora Dina. - Tem a Menina Alfacinha. Passou debaixo de uma escada, e... vejam lá que grande azar!... Levou com um balde de tinta verde na cabeça!
.
.
terça-feira, 28 de julho de 2009
VOANDO COM O VENTO, história de Ilona Bastos
III
Rosa Branca, perante a pobre mãe chorosa, sentiu o coração saltar-lhe no peito, enquanto os olhos lhe ganhavam um brilho especial. Havia uma solução! Só havia uma solução! Correr até à Cidade do Nascer do Sol e trazer o medicamento para Jacinto!
Rapidamente, Rosa Branca atingiu a Cidade do Nascer do Sol, encontrou o Hospital, tomou em suas mãos o medicamento precioso e guardou-o cuidadosamente na mochila. Sem esperar, acenou adeus aos doentes que haviam acorrido às janelas do edifício e, sorrindo, lhe desejavam um bom regresso. Rapidamente murmurou:
Casaram na Aldeia, numa festa que reuniu a família e os amigos. Depois partiram, felizes.
domingo, 12 de julho de 2009
O MENINO RABINO, história de Ilona Bastos
Era uma vez um Menino Rabino que não parava de falar. Falava sozinho. Falava aos pássaros, que lhe respondiam em alegre chilrear. Falava às flores, que encenavam danças ao vento. Falava ao próprio vento, que desconversava em rabanadas vigorosas. E por vezes falava às pessoas, que o ouviam, surpreendidas, não entendendo as suas palavras. Então, o Menino esbracejava, lançando os pequenos punhos ao ar, para em seguida os baixar e continuar o seu caminho.
Por tudo se interessava o Menino, de olhar irrequieto, observando, tacteando com os seus deditos gorduchos, depois atirando: a bola em que pegara; o carro dos bombeiros, buzinando, estridente; o coelho de peluche, de dentitos atrevidos; a revista rasgada, salpicando a cor dos anúncios pelo chão da sala.
Que intrigante, o Menino Rabino! Meiguinho, de acariciar na maciez das suas bochechinhas coradas ou no dourado do seu cabelo suave. E falador, sempre, sempre. Se alguma coisa lhe diziam, o Menino Rabino, com os olhos redondos, malicioso, sorria, e logo iniciava o seu discurso próprio, com palavras que só ele conhecia, muito enfáticas, veementes, exclamativas!
Certo dia, foi o Menino ao campo. Brincou com os esquilos descarados que de árvore em árvore saltitavam, surripiando nozes. Banhou-se no lago, por entre os reflexos dos raios solares e o luzir das escamas dos peixinhos vermelhos. E arranjou um amigo. Era um sapo pequenino e verde, que lançava "croacs e crancs" à sua volta, com surpreendente energia.
Curioso, o Menino Rabino pegou no sapinho e, com uma habilidade insuspeitada, a que deu auxílio a vontade do engraçado batráquio, meteu-o dentro de uma caixa de plástico que transportara os pães para o piquenique.
De regresso a casa, sem chamar a atenção sobre o seu companheiro de viagem, veio o Menino Rabino, bem-comportado, empoleirado no estofo do automóvel, espreitando as árvores que à beira da estrada com eles se cruzavam - alongadas nuvens de verde brilhante - a grande velocidade.
No seu quarto, encontrou o Menino adequado recanto para o visitante que, maravilhado, o olhava. Do jantar, comido em silêncio, retirou uma malga de água que para o esconderijo levou, à socapa. E ninguém desconfiou de nada, pese embora o facto de o Menino não falar, o que não era seu hábito.
Com o amigo, no quarto, também a conversa não era necessária. Por estranho que pareça, bastava um sorriso, um gesto, um olhar, e logo se entendiam. Tudo estava dito.
O sono da noite foi bom para os dois que, já depois de apagada a luz, a janela aberta, a cortina afastada, olharam as estrelas até tarde. O cantar dos grilos fez-se nítido por entre o ladrar dos cães, ao luar. Soltaram ainda pequenas gargalhadas a respeito de uma borboleta nocturna que, desastrada, dava turras num candeeiro de rua. Chegaram mesmo a sentar-se no parapeito baixo, de rés-do-chão, e espreitar os ratitos pequenos que rapidamente atravessavam a relva.
No dia seguinte é que foi a verdadeira surpresa. Não por causa do sapinho, naturalmente, que se escondeu, por quaisquer artes mágicas, e não foi encontrado. O espanto estava no Menino, que não falava. Sim, de tão falador que era, tornou-se silencioso. E no entanto, não estava triste. Continuava a mostrar interesse por tudo, mas um interesse mais recatado - como direi? - mais sério, como que mais importante. Tão importante que nem dava resposta à mãe quando lhe perguntava se queria leite, ou pão, de que tanto gostava. E, de corrida para o quarto, lépido, ocultando um sorriso matreiro por entre as mãozitas fechadas em concha, acabava na risota com o seu amigo sapinho.
Rebolavam, a rir, sobre a manta azul que cobria o chão. O Menino Rabino tinha um segredo e ninguém o sabia. E o sapito, tão esperto que era, não se deixava apanhar.
Quantas brincadeiras, às escondidas, no quarto! E depois, durante a noite, a ousadia de saltar para a relva e jogar à apanhada, saltitando por entre as árvores do jardim. Estando mais fresco, enfiavam gorros, cabeças abaixo, e cobriam-se com mantas. Quando aquecia, salpicavam-se com a água que o Menino Rabino trouxera da cozinha, ou esgueiravam-se até à mangueira, esquecida no pátio.
Bom, o tempo foi passando, e um belo dia, sem avisos nem despedidas, o sapinho desapareceu. Isso mesmo. O Menino chegou a casa, vindo da escola, e procurou o seu amigo: debaixo da cama, onde às vezes gostava de descansar; em cima do armário, onde se acomodava para o surpreender; rentinho à cómoda, junto aos automóveis, onde frequentemente meditava. E nada. O sapinho não estava lá - apenas a janela aberta.
Ágil, o Menino saltou o parapeito, e tudo lhe pareceu diferente. Não pior, nem mais feio. Somente diferente. Do sapinho, nem sombra.
Ao fundo, rosadas, as nuvens pincelavam tonalidades lindas ao pôr do sol. Alguns pássaros chilreavam. E foi então que o Menino percebeu. Ou melhor, não percebeu!
Não percebeu o que os pássaros diziam. Em contrapartida, o seu canto... Que melodia!
Uma leve brisa soprava, e ao Menino soou a vento, vento agradável e fresco, mas que nenhuma mensagem lhe trazia.
As flores fechavam-se, ao cair da noite sem lhe contar as novidades do costume, que o faziam sorrir. Porém, a cor das suas pétalas encantou o Menino, que as achou encantadoras, nas suas roupas de festa!
O Menino voltou a trepar à janela e entrou no quarto. Por momentos, a ausência do sapinho, seu companheiro, tomou-o de melancolia. Mas foi só durante dois segundos!
Então, o Menino Rabino - mais menino, mais rabino do que nunca! - correu de bracitos estendidos para abraçar a mãe.
- Mãe! Mãe! Amanhã vamos dar um passeio ao campo, está bem?
E a mãe percebeu!
A partir desse dia o Menino voltou a falar. Só que de uma maneira diferente: não falava sempre, mas sempre que falava todas as pessoas o entendiam.
Também o compreendeu o sapinho, nosso conhecido, quando o Menino Rabino o reencontrou, meses mais tarde, numa patuscada com os pais à beira do lago. Chefe de família ajuizado, já não soltava à toa os seus “croacs e crancs", mas ao Menino Rabino cumprimentou com grande alegria. Juntos, recordaram as brincadeiras passadas, e ainda soltaram umas belas gargalhadas.
Não se espantem por o sapinho compreender o menino agora que ele falava como todas as outras pessoas. É que os amigos, independentemente da língua que utilizem, sempre se entendem!
domingo, 28 de junho de 2009
A PARTIDA, história de Ilona Bastos

A Lili e a Lóló são duas gémeas verdadeiras, e se não fosse por um pequeno pormenor ninguém conseguiria distingui-las: a Lili tem o cabelo liso, e a Lóló tem caracóis.
Mesmo quando a mãe as veste de igual, com uns vestidinhos curtos aos folhos e às flores coloridas, logo as vizinhas as diferenciam: a Lili, pelo cabelo sedoso e solto, caindo-lhe leve sobre os ombros; a Lóló, pelos caracóis redondinhos, aos cachos, que lhe emolduram a carinha simpática.
A Lili e a Lóló são muito traquinas e adoram pregar partidas.
No mês passado planearam enganar as amigas, fazendo-se passar uma pela outra.
- É simples! - disse a Lili à Lóló. - Basta trocarmos de penteados quando formos à festa da Joana.
A Lóló olhou para o espelho e tocou nos caracóis.
- Com uma escova e o secador posso tornar o meu cabelo bem liso. - disse ela.
- Com uns rolos e algum gel encho-me de caracóis. - resolveu a Lili.
Tão bem foi guardado o segredo que nem a mãe desconfiou. E a prática de esticar e enrolar os cabelos das bonecas mostrou-se preciosa no momento de meter mãos à obra.
- Que tal estou, Lili? - perguntou a Lili à Lóló, já com a cabeça coberta de caracóis.
- Óptima, Lóló! Aliás, como eu, não é verdade? – respondeu a Lóló à Lili, entusiasmada com o esvoaçar do cabelo liso junto ao pescoço.
O plano estava a correr às mil maravilhas, e muito haviam de se rir as gémeas quando as amigas percebessem como tinham sido enganadas!
A Lili e a Lóló vestiram as saias castanhas, escolheram as blusas amarelas e calçaram os sapatos de festa.
- Muito bem, meninas! - aprovou a mãe, com um sorriso carinhoso - Estão muito bonitas! Mas não se esqueçam dos guarda-chuvas, porque está a chover muito, lá fora...
As gémeas trocaram um olhar cúmplice, e tiraram os chapéus do bengaleiro. A Lili trouxe o guarda-chuva vermelho, da Lóló. A Lóló trouxe o guarda-chuva azul, da Lili. E seguiram a mãe até ao automóvel, onde se instalaram, muito satisfeitas.
Já sentada ao volante, a mãe, de repente, voltou-se para trás.
- O que se passa? - perguntou, surpreendida. – Hoje resolveram trocar de guarda-chuvas?
As gémeas coraram.
- Ó mãe, como é que descobriste?! - gritaram, em coro.
- É claro como água! - exclamou a mãe, soltando uma gargalhada.
A Lili e a Lóló olharam-se no espelho retrovisor e tudo compreenderam. Fora a chuva, traiçoeira, que num minuto encaracolara o tão esticado cabelo da Lóló, e esticara o tão enrolado cabelo da Lili.
Com a água é que as gémeas não tinham contado!
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O BALÃO VERMELHO, história de Ilona Bastos
Um belo dia, o Balão Vermelho foi embalado, juntamente com noventa e nove irmãos de todas as cores, numa caixa de cartão canelado. E, assim acomodados, os cem balões foram parar à loja da esquina, uma pequena tabacaria pertencente à Dona Celeste.
Tão excitado se encontrava o Balão Vermelho que nem deu pelo chegar a casa e o ser arremessado para dentro de um saco de plástico, em cima de uma cadeira.
Com o coração a bater depressa, aí se deixou ficar, saboreando a maravilhosa sensação de liberdade que o invadia.
E havia os convidados, naturalmente. Traziam fatos novos e presentes de vários tamanhos - surpresa! - embrulhados em papéis brilhantes e enfeitados com belas fitas e laços.
Deu-se aqui um acaso misterioso. Acompanhando as gargalhadas das crianças, pelo ar esvoaçavam balões amarelos, verdes, rosados e azuis. Porém, o Balão Vermelho ficara esquecido dentro do saco de plástico.
Ansioso, espreitando do seu canto, o Balão não compreendia por que razão todos os seus irmãos bailavam de mão em mão, enquanto ele se via ignorado, abandonado... Sentia-se confuso e triste, mas tentava consolar-se, murmurando:
- Já falta pouco! Já falta pouco!
O Balão Vermelho encostou-se bem ao fundo do saco, suspirou, desanimado, e adormeceu. E, assim, outra noite se passou.
Na manhã seguinte, o Balão Vermelho ficou abismado quando a persiana foi levantada. À luz do sol, o quarto assemelhava-se a um campo de batalha. Por todo o lado havia brinquedos. Bonecos, carros, bolas e jogos electrónicos espalhavam-se descuidadamente pelo chão e pelos móveis. Dos balões, nenhum restava inteiro.
Com os olhos ainda ensonados, os passos leves, os pés calçados em meias de lã, o Francisco começou a percorrer o quarto, atento, em busca de novidades.
Foi então que encontrou o saco de plástico com o pacote de papel, num canto da cadeira. Investigou o seu interior e de lá retirou, eufórico, o Balão Vermelho. Uma onda de alegria inundou o rosto do menino.
- Olha o Balão Vermelho! Então, maroto, como é que ontem conseguiste escapar? Deixa lá que já te vou encher!
- Enche, enche depressa! - pensou o Balão, radiante.
Mas os pais do Francisco não se mostraram de acordo, e foram bem claros:
- Óptima ideia! - aprovou o Francisco.
Sobressaltado, o Balão Vermelho quase gritou:
Num ápice, o Francisco arrumou os jogos no armário, os livros na estante, os carros na garagem e os bonecos nos seus respectivos lugares.
Mais tarde, lavado, vestido e com o pequeno-almoço tomado, o jovem Francisco pegou no seu Balão Vermelho, encheu-o, e, orgulhoso pelo trabalho bem feito, acompanhou os pais até ao parque.
Na verdade, estava uma manhã linda, com o céu muito azul e o sol a brilhar. Exactamente daquelas manhãs em que aos meninos salta o pé para a brincadeira, ao mesmo tempo que uma vozinha afoita lhes segreda ao ouvido: “Vem, vem correr na relva. Estão todos à tua espera para jogar à apanhada!”.
O parque encontrava-se cheio de gente naquela manhã de Domingo. Na televisão haviam anunciado a passagem dos balões de ar quente provenientes de um Festival organizado numa cidade vizinha. E tinham mesmo aconselhado a população a deslocar-se ao parque, onde, melhor que em qualquer outro local, poderia ser observado o espectáculo sem que os edifícos altos ou outras construções impedissem a visibilidade.
De repente, um grito ecoou pela multidão que, num só gesto, ergueu o seu olhar para o horizonte.
- Hei-los! Vêm aí os balões!
Inicialmente esbatidos, contra o azul do céu os balões de ar quente iam ganhando forma e cor à medida que se aproximavam empurrados pelo vento. As suas cúpulas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, redondas e luminosas, aumentavam gradualmente de tamanho e fascínio. Enquanto distantes, assemelhavam-se a brinquedos antigos, representados nalguma estampa de fim de século, mas ao perto transformavam-se em espantosas naves, enormes e arrojadas, transportando, nas suas barquinhas, destemidos aventureiros.
E de cá de baixo, do meio da multidão, o Francisco e o Balão Vermelho exultavam:
- Eu quero ser balonista! - exclamava o rapaz, eufórico. - Quero viajar num balão e dar a volta ao mundo.
O pai sorriu.
- Sim, isso é possível, quando cresceres. E olha que há um português cujo nome está ligado à invenção dos balões, dos aeróstatos: Bartolomeu de Gusmão...
- Sim, quero ser balonista... quando crescer!
- E eu quero ser balão... agora! - gritou o Balão Vermelho, aproveitando o impulso e ganhando altura.
Uma rajada de vento fê-lo subir uma dezena de metros e, de cima, baixou o olhar para o parque, onde o Francisco estendia os braços à espera de o receber.
- Adeus, Francisco! - murmurou o Balão, enternecido - Gostei muito de te conhecer. Mas, agora, sigo o meu destino.
Mas o balão não disse nada, afastando-se.
Finalmente, o nosso amigo alcançou o balão da frente, o dos gomos cor-de-laranja, verdes e amarelos, que parecia ser o líder e que de imediato se lhe dirigiu:
- Mas então esta viagem não é um passeio? - perguntou o Balão Vermelho, surpreendido.
O Balão Vermelho ficou tão espantado que perdeu um pouco de altitude e teve de fazer um esforço para acompanhar o Citrino.
- Sim, realmente é preciso coragem para voar pelos céus! - concordou o Balão Vermelho, logo acrescentando - E a vossa tarefa parece-me extremamente complicada...
- Claro que o teu caso é completamente diferente - interrompeu o Citrino. - Não tens ninguém para transportar, nem trazes ar quente no teu interior. Afinal, o que é que te faz voar?O Citrino ficou à espera que o Balão terminasse a frase, mas este permaneceu calado. Foi ainda o comandante que concluíu, com o ar decidido de quem dá a conversa por encerrada:
O diálogo com o Citrino distraíra o Balão Vermelho ao ponto de este não mais saber onde se encontrava, e isso deixava-o um pouco ansioso. Por outro lado, as palavras do enorme balão de ar quente sobre a sua missão, e a resposta que ele próprio tão espontaneamente lhe dera, intrigavam-no. Sentia-se confuso, exactamente como às vezes nos acontece: estamos convictos de que arquitectámos uma ideia simplesmente brilhante, mas não conseguimos explicá-la; sabemos que uma palavra nos está debaixo da língua, pronta para a dizermos, e no entanto foge-nos no preciso momento em que desejamos pronunciá-la...
Entregue a tais pensamentos, o Balão foi-se deixando levar pelo vento. Sentia-lhe a carícia suave e entregava-se-lhe confiadamente.

