quinta-feira, 29 de setembro de 2011

PÃOZINHO DE CADA DIA, poesia de Maria da Fonseca

Fotografia dos Pardais, Arlete


Grande demais a migalha
Que o pardal debicava.
Rápido e perseverante
O seu filho alimentava.


O pequeno o bico abria
Dando às asas ansioso
Para receber do pai
Pãozinho delicioso.


A cena era comovente
E feliz eu me senti
Por podê-la observar;
No momento 'star ali.


Mas os pombos não deixaram
E um, em voo rasante,
Apanhou-lhes a migalha
Levando-a, pois, de rompante.


Na linda tarde de V'rão
Não vi que houvesse luta.
As aves bicando o chão
Retomaram a labuta.
.
.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O MOSTRENGO, poesia de Fernando Pessoa

David de Almeida, O Mostrengo, painel em pedra gravada, Escola EB 2,3/S de Oliveira de Frades



O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»
 
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»
 
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A HISTÓRIA DA GLÓRIA, história da Avómi


Imagem da Internet

A Ritinha gosta muito de histórias, sabe algumas e gosta muito das histórias que a mãe conta:

Livrinho amarelo
gancho no cabelo
Ritinha conta
histórias que encanta

Muito inteligente
também divertida
faz rir toda a gente
e é muito amiga

logo pela manhã
acorda a mamã
- Conta uma história!
aquela da Glória!

Então a mãe conta-lhe a história da Glória:

Mãe - A Glória é uma menina de quatro anos que está numa Creche, porque a mãe trabalha e não pode dar-lhe assistência durante o dia.

Rita - É como eu, não é mamã?

Mãe - É sim, minha filha! Posso continuar?

Rita - Sim, mamã, que eu gosto muito das tuas histórias!

Mãe - Logo pela manhã vai o pai ou a mãe levá-la à Creche, despedem-se com um beijinho e vão para os seus empregos.

Rita - Para ganhar dinheirinho, não é mamã?

Mãe - Claro, Ritinha! A menina já sabe que é! Interrompe tantas vezes, que daqui a pouco vou esquecer-me da história.
 
Rita - Pronto, mamã! Prometo que não interrompo mais.

Mãe - A Glória fica tristinha quando vê os pais partir, mas começa a brincar com as outras crianças e distrai-se. De vez em quando chegam-lhe as saudades e pede à Educadora para telefonar à mamã, porque a mamã deve estar com saudades.
A Educadora acha muita graça, uma vez por outra faz-lhe a vontade e delicia-se a ouvir o diálogo que é o seguinte:

- "Mamã, quando é que vens buscar-me? Estou a brincar muito bem com as minhas amigas e com os meus amigos, mas às vezes também me apetece brincar contigo e com o papá! Não sei porquê, mas sinto saudades!...
Ó mamã, quando logo me vieres buscar e formos para casa, brincas comigo às mães e filhas? Olha, eu vou ser a mãe, está bem? Faço o almocinho, o jantarinho, ponho a mesa... Tu ajudas-me, mamã?"

- "Ajudo! - diz a mãe do outro lado - Mas logo conversaremos melhor. Agora temos que desligar. A mamã tem que fazer e a menina também! Beijinho e até logo, Glória."

- "Até logo, mamã! Vem cedo! Diz ao papá para vir também, para brincarmos todos."

- "Está bem, minha filha! Até logo!..."

A Glória desliga o telefone muito contente e vai a correr contar à Educadora toda a conversa que teve com a mãe. Depois corre para os companheiros, conta-lhes também e acrescenta:

- "Eu brinco muito com o papá e a mamã! Eles contam-me histórias muito bonitas e eu conto-lhes as que sei. Conto sempre aquelas histórias que a nossa Educadora, a Isabel, costuma contar-nos aqui na Creche, e eles gostam muito. Todos os dias me pedem para lhes contar uma história nova.
Lembram-se daquela do Passarinho de Oiro? Hoje vou pedir à mamã para ma contar. Como já lha contei há muito tempo, quero ver se ela ainda se lembra. A mamã é tão esquecida! Às vezes, no dia seguinte já não se recorda do que me tinha prometido na véspera.

Nós sabemos histórias muito bonitas, porque a Isabel sabe muitas e tem muito jeito para as contar! Aquela do Passarinho de Oiro foi-nos contada por ela, ainda éramos bem pequeninos! Lembram-se? Ela até teve que a contar muitas vezes!...
Quando sairmos da Creche para irmos para a Escola Primária, havemos de ter saudades da nossa Educadora que é tão nossa amiga!..."

- "Sim, sim! Havemos de ter muitas saudades da Isabel, mas poderemos vir visitá-la, de vez em quando. - disseram os outros meninos."

Mãe - Termina aqui a História da Glória. Gostou?

Rita - Gostei muito, mamã, mas cá para mim essa História da Glória parece igualzinha ao que se passa comigo na Creche! Tu não inventaste, nem nada!?!...

- Não, minha filha! Não inventei, mas existem histórias muito parecidas com a realidade, por isso não admira que te identifiques com a Glória.


sábado, 3 de setembro de 2011

O RESTAURANTE DO JOAQUIM - 1ª Parte, história de Ilona Bastos

Ilustração de Ilona Bastos
Era uma vez um casal que teve um filho. E, porque o amava muito e achou o nome bonito, baptizou-o de Joaquim.

Para garantir-lhe o futuro, decidiu o pai construir um restaurante - pedra sobre pedra, bem ligadas com cimento. A cobrir, colocou-lhe um vistoso telhado de argila vermelha, e, por dentro, amplas mesas e toalhas brancas. Assim era o Restaurante do Joaquim.

No primeiro aniversário do filho, levou-o o pai ao restaurante, ansioso por assistir à alegria infantil da criança perante o luzir dos talheres sobre as mesas e o brilhar dos copos sob a luz dos candeeiros.

Porém, a verdade é que o menino pouca piada achou àquilo tudo, mais entretido que estava em puxar ao pai as suíças e os bigodes. Mas o pai, enternecido, não se cansava de dizer:
- É o teu futuro, Joaquim, o teu restaurante.

O Joaquim cresceu cheio de vida e curiosidade por tudo o que o rodeava. E cedo manifestou o desejo de aprender a nadar. Logo os pais providenciaram para que o fizesse, e o rapaz depressa se tornou sério candidato a campeão.
Ilustração de Ilona Bastos

Na escola, o Joaquim mostrava-se bom aluno, sabia as lições, e com interesse aprendia tudo o que os professores ensinavam.

Entusiasmado, o pai ansiava pelo dia em que o Joaquim, terminados os estudos, tomasse conta do seu restaurante.

O restaurante que, diga-se de passagem, ocupava todos os tempos do pai de Joaquim, que dele cuidava com esmero, aperfeiçoando cada prato, cada iguaria, cada detalhe, reunindo dessa forma uma fiel clientela.

Mas o Joaquim parecia ter planos diferentes, e desejava continuar a estudar. Surgiu-lhe a ideia de que, se se movia na água, devia mover-se no ar. Queria aprender a pilotar aviões.

E os pais tudo fizeram para que o Joaquim se matriculasse na adequada escola e tirasse o seu brevê.

Que cuidados, que orgulho, os daqueles pais! O seu filho só lhes dava alegrias! E para que tudo ficasse bem, só faltava que o Joaquim se dedicasse ao restaurante.

No dia do exame final, quando, fardado, empunhava o diploma, o pai falou-lhe no assunto, mas o Joaquim, muito sério, confidenciou:

- Pai, tudo isto tem sido muito interessante, mas na verdade eu quero é ser astronauta. Quero ir para a América, trabalhar na NASA e viajar pelo espaço.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

FIM DE AGOSTO, poesia de Maria da Fonseca



Fim de Agosto, fim de férias,
Todos regressam contentes,
Seus hábitos, seus trabalhos,
Reencontros sorridentes.

Na mudança de ambiente,
Houve tempo pr'a pensar.
Numa ânsia de progresso,
A ideia é melhorar.

E sentem-se mais saudáveis,
Com o espírito liberto.
Os projectos variados
Têm seu momento certo.

Os alunos vão pr'a escola,
Com postura impecável.
Os pais muito recomendam,
Mostra de amor incansável.

Surgirá nova matéria,
Que é preciso aprender.
Mas são muito curiosos,
E amigos de mais saber.

Mais um ano escolar,
Um ano da vossa vida,
Com desafios e surpresas,
Esperança renascida.

E tudo correrá bem,
Com vontade e simpatia,
Daqueles que vos ensinam
A vencer no dia a dia.

Será grande o vosso esforço,
E o de todos os demais.
Mas o ano será cumprido,
Por favor não vos temais.

Uma vez chegado ao fim,
Mostraram ser animosos.
Provas dadas de que são
Cumpridores e generosos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

HINO DE AMOR, poesia de João de Deus

Imagem da Internet


Andava um dia
Em pequenino,
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O Deus-Menino,
O Bom Jesus.
Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto;
Foge a serpente;
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
Duma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!


Jesus caminha,
No seu passeio;
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio,
Enquanto o via:
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira,
E mal pousava,
Não afrouxava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E o foi seguindo.
De tal maneira
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino,
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o Hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!



segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A PRAIA, quadras de Ilona Bastos

Praia da Vieira, de Sílvia Patrício


Voam pipa, disco,  bola,
Espuma branca, onda do mar.
Rente à areia macia,
Passa a gaivota, a planar.

Um papagaio descola,
Pula o menino, a brincar.
Ao vento, em doce carícia,
 Vela de barco a vogar.