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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A GIRAFA AMIGA, história da Avómi


Girafa do site do Jardim Zoológico de Lisboa

                                          
Encontrámos a Josefa prostrada de cansaço no meio da selva.
Éramos um grupo grande e havíamos partido de casa na véspera, apetrechados com todas as coisas que nos iriam ser necessárias durante um mês, tempo que pensávamos permanecer na selva para um Safari.

Os jeeps iam cheinhos de alimentos, medicamentos, roupas, sabonetes, shampôs, pastas de dentes, sabão, detergentes, panelas, pratos, copos, talheres e até recipientes com água, para, no caso de não a haver por perto nalgum dos locais onde acampássemos, estarmos prevenidos.

O tempo estava quente, mas naquele dia não havia chovido, o que tornou o percurso até ali menos moroso. Percorremos, assim, vários quilómetros, sem quase nos darmos conta.

Como íamos dizendo, a Josefa, uma girafa nossa amiga com quem dialogamos sempre que fazemos um Safari naquela região, estava prostrada, sem forças, estendida no chão, rosto repleto de lágrimas e soluçava sem parar.

- Que se passa contigo, Josefa? - perguntou um dos nossos companheiros, o Duarte.

- Es...tou com so...lu...ços des...de ontem e sin...to...-me can..sa...da. Acho que vou morrer.

- Nem penses nisso! - dissemos todos - Vamos já buscar água, beberás uns golos e passar-te-ão os soluços num instante.

Acalma-te, que voltaremos rapidamente. O Rui ficará contigo, para que te sintas acompanhada - disse eu.

Fomos buscar água, mas quando regressávamos apanhámos um valente susto e metade da água desapareceu dos recipientes, porque começámos a correr, depois de termos ouvido o Rui gritar:

- Fujamos, que há leão!... Fujamos depressa, que ele corre na nossa direcção!

O Rui é muito brincalhão e amigo de fazer partidas. Como em tempos ouviu dizer, que quando alguém está com soluços, a melhor coisa para eles passarem é pregar um susto, não se fez esperar, tanto mais que, ao mesmo tempo que tentava uma solução para o problema da Josefa, pregar-nos-ia uma partida, o que lhe agradaria muito. E assim aconteceu.

A Josefa apanhou tamanho susto, que se levantou repentinamente e fugiu na direcção do Rui. Nós perdemos metade da água que tínhamos ido buscar ao rio.

Só nos apercebemos de que tinha sido mais uma partida do Rui, quando o vimos escondido atrás duma espinheira, rindo perdidamente, e a Josefa de pescoço no ar à procura dele, cheia de medo.

O Rui, depois de fazer a Josefa passar um mau bocado, porque não o via e não sabia para onde fugir, levantou-se e a rir às gargalhadas, perguntou-lhe:

-Passaram-te os soluços, Josefa?

- Ah, já não tenho soluços, mas quero esconder-me do leão. Onde é que o viste? Onde é que ele está? Estou tão assustada que até me passou o cansaço motivado pelo soluços.

- Ó Josefa, não há leão nenhum! - dissemos nós - Foi o maroto do Rui que gosta muito de fazer partidas e, para nos assustar, resolveu dizer que havia leão por perto.

- Não foi só para vos pregar uma partida! - disse o Rui - Foi também para que passassem os soluços à Josefa, o que, como podem ver, resultou. Não é verdade Josefa?

- É verdade! Passaram-me os soluços e não sei como tive força para me levantar e fugir a sete pés. E lembrar-me, que desde ontem me vinha a sentir tão mal por causa dos soluços! Depois deste susto, sem me dar conta, passaram completamente.


- Quem me disse que um susto pode fazer passar os soluços, não mentiu! - exclamou o Rui, muito satisfeito - Eu pensava que era brincadeira, mas é mesmo verdade.

- Vamos então continuar a nossa viagem - disse o Bruno - pois ainda temos muitos quilómetros para percorrer e vai-se fazendo tarde.

- Espero não voltar a ter soluços, senão quem me valerá?

- Se voltar a acontecer, corre para a beira do rio e bebe cinco golos de água, que é outra maneira de fazer passar os soluços.

- Quem me dera viver perto de vós, para poder estar descansada! Vocês arranjam sempre remédio para tudo!

- Não pode ser, mas qualquer dia passaremos outra vez por aqui, para uma conversinha contigo. Agora não podemos perder mais tempo.

Continuámos a nossa viagem e, embora com pena de nos ver partir, a Josefa ficou satisfeita a aguardar a nossa próxima passagem por ali.
       
 
                                                                                                                               Avómi

sábado, 2 de julho de 2011

A OVELHINHA MANHOSA, história da Avómi

Ovelha - Imagem do Blogue Locks Park Farm


Estava um dia de sol e a Cabrinha Saltarica não queria perder nem uma réstia. Como não gostava de estar quieta, andava a saltaricar sobre as pedras e viu a Ovelhinha Manhosa que fugia assustada. Com curiosidade, perguntou-lhe:

- Para onde vais neste dia tão bonito, com esse ar assustado, Ovelhinha Manhosa?

- Não digas nada, Cabrinha Saltarica, mas vou tentar esconder-me, porque andam por aí uns senhores a cortar a lã às ovelhas e não quero que me façam o mesmo.

- Não queres que te façam o mesmo? Ora essa! Então queres andar com a lã a arrastar pelo chão, com esse aspecto tão feio?

- Prefiro, porque já uma vez me cortaram a lã e andei uns tempos a tiritar de frio. Não estou para isso.

- Tu é que sabes, mas acho que fazes mal, Ovelhinha Manhosa.

- O que eles querem, é vender a minha lã para fazer casacos, mas nessa é que eu não caio. Iam ficar os outros com casaquinhos quentinhos, feitos com a minha lã e eu cheia de frio, não?! Era o que faltava! Pensam que são espertos, mas enganam-se, pois eu sou bem mais esperta que eles.

- Mas olha lá, Ovelhinha Manhosa, a tosquia acontece todos os anos na época própria e a lã volta a crescer, por isso não compreendo o teu receio! Olha que é para teu bem!

- Não tens nada que compreender. Eu é que sei da minha vida, e com a minha lã ninguém há-de andar aquecido.

- Estás a ser egoísta, Ovelhinha Manhosa.

Cabra - Imagem do blogue True Wild Life
 
Passado algum tempo, a Cabrinha Saltarica subia a encosta aos saltinhos, toda contente, encontrou uma ovelha muito gorda, muito feia e suja. A lã dela arrastava pelo chão e mal podia mexer-se.

A Cabrinha Saltarica fez os possíveis por passar bem longe dela, pois estava tão suja e cheirava tão mal, que metia nojo.

Era a Ovelhinha Manhosa, mas devido ao seu estado e à modificação que sofrera, a Cabrinha Saltarica não a reconheceu. Contudo, a Ovelhinha Manhosa reconheceu imediatamente a Cabrinha Saltarica e disse:

- Não me cumprimentas, por eu estar feia e doente, já sei.

- Ah, és tu! Desculpa, mas não te reconheci. Com efeito, estás mesmo feia! Eu bem te dizia, mas não quiseste crer!

- Ai, Cabrinha Saltarica, nem sabes quanto tenho sofrido! Se és minha amiga, por favor, arranja-me depressa um tosquiador, que já não aguento mais com tanto peso e o calor dá cabo de mim.

- Agora é impossível, dado que não é a altura das tosquias. Terás que esperar, porque se fosses tosquiada nesta altura, não aguentarias o frio do Inverno que se aproxima. No entanto, vou falar com o Senhor Francisco que é o tosquiador das ovelhas do meu dono e veremos o que ele diz, mas acho que me dará razão.

- Se visses como as Ovelhas lá da quinta estão bonitas!...

- Não desanimes, Ovelhinha Manhosa! Ainda que não seja possível seres tosquiada agora, o pior tempo já passou. Tens que ter paciência e aguentar mais um pouco. Cá para mim, isso é castigo de Deus pelo teu egoísmo e terás mesmo que aguentar até à próxima época.
 
De futuro já sabes, que as coisas quando acontecem, é por alguma razão e não voltarás a esconder-te na altura das tosquias, visto que, não só prejudicas os outros, mas também a ti própria.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O ELÉCTRICO DE NATAL, história de Ilona Bastos


- Olha o eléctrico! Olha o eléctrico! - gritou o menino, excitado.
E a mãe espantou-se:
- Qual é a admiração, Júlio? Eléctricos há muitos!
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Mas o rapaz, agitado, puxava a mãe pelo braço, ao longo da Rua dos Fanqueiros.
- Quero ir no eléctrico!
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A mãe voltou-se e compreendeu. Todo engalanado de luzes e decorações natalícias, o eléctrico amarelo evoluía pela rua fora como um brinquedo gigante saído de um conto de fadas.
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O som dos cânticos de Natal invadia a rua, alegrando as pessoas que entravam e saíam das lojas, também elas enfeitadas para a quadra festiva.
O menino não hesitou quando o carro passou junto dele, e, de um salto, arrastou a mãe para o veículo, tropeçando nos degraus.
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Lá dentro, uma claridade especial fez mãe e filho piscarem os olhos, enquanto o palhaço Aboborinha os convidava a sentarem-se, com patuscos gestos das suas mãos enluvadas. O guarda-freio, que era o Pai Natal, acenou-lhes, satisfeito.
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Espreitando pela janela emoldurada de branco, parecia a cidade coberta de neve. E dentro da carruagem os bancos de madeira envernizada brilhavam com o esplendor dos arraiais.
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Os palhaços contavam anedotas, torcendo a boca pintada, em enormes gargalhadas. O Júlio ria, também, como que hipnotizado. A mãe, olhando em redor, sentia-se novamente menina, feliz, ansiando pelos presentes que o Menino Jesus deixaria junto à chaminé.
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Lâmpadas de todas as cores salpicavam a noite, formando desenhos de anjos, laços e azevinhos esvoaçantes e, ao fim de tantos anos, as velhas ruas da baixa lisboeta voltavam a surgir à mãe do Júlio como caminhos encantados, onde todos eram felizes e só a Alegria e o Amor imperavam.
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Na Praça do Comércio, o eléctrico parou, e os palhaços, com grandes acenos e sorrisos, despediram-se dos passageiros, entregando-lhes, à saída, um presentinho surpresa.
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- Feliz Natal! Feliz Natal! - entoavam as crianças e o Pai Natal.
- Festas Felizes! Festas Felizes! - cantavam o Júlio e a mãe.
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E aquelas palavras, repetidas vezes sem fim, soavam como badaladas de um sino em dia de festa.
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O Júlio voltou a agarrar o braço da mãe, desta vez para a levar até uma loja de brinquedos, onde um Pai Natal risonho guiava as suas renas pelo azul dos céus.
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A mãe seguiu o filho contrariada, sem desprender o olhar do eléctrico de Natal, onde um novo grupo de crianças iniciava o seu passeio.
Malicioso, o Júlio soltou uma gargalhada:
- Então, mãe! Eléctricos há muitos!


De 2 a 20 de Dezembro, em Lisboa, o  Eléctrico de Natal da Carris transportará os mais novos em viagens natalícias cheias de surpresas e momentos inesquecíveis.
O passeio é gratuito e realiza-se mediante inscrição das respectivas escolas. 
O Eléctrico de Natal funciona de segunda a sexta-feira, das 9H30 às 17H00, e aos sábados das 10H00 às 11H00.




domingo, 28 de novembro de 2010

A PRINCESA COM CORAÇÃO DE OURO, história da Avómi

Princesinha, pintura de Numpueng

Era uma vez uma Princesa que vivia num Castelo situado no meio dum bosque. A Princesa não era bonita nem feia, mas tinha um coração de ouro e vivia para ajudar as pessoas necessitadas.


O pai da Princesa era um Rei muito austero, ganancioso, egoísta, e não lhe agradava nada que a filha fosse tão boazinha, pelo que resolveu mandar construir aquele castelo, precisamente para levar para lá a Princesa e assim privá-la de ter contactos. A Princesa ficou completamente isolada e por companhia tinha apenas os Servos.

De vez em quando o Rei visitava a filha, mas não lhe fazia um carinho nem sequer reparava na sua tristeza. Apenas a rodeava de luxo e conforto.

A Princesa, encerrada naquela masmorra, deixara de ser feliz, já que naquele lugar tão distante não podia fazer o que seu coração pedia. Passava horas e horas a magicar sobre a possibilidade de se ver livre de tão terrível cativeiro, mas no meio do bosque cerrado sem que ali aparecesse viva alma, que poderia fazer?

A Camareira que o Rei destinara à Princesa era sisuda e pouco faladora, por isso a Princesa tinha receio de manifestar a sua preocupação, e passavam dias e dias sem se dirigirem uma palavra.

Certo dia, ao entrar nos aposentos da Princesa, a Camareira apercebeu-se de que ela havia chorado copiosamente e ficou preocupada. Perguntou-lhe se sentia alguma dor, ou se algo lhe faltava, ao que a Princesa respondeu, não com palavras, mas com um choro exasperado.

Os Mestres andavam também preocupados com o desinteresse da discípula, tanto mais que antes ela era muito aplicada. Até o piano que antes tanto gostava de tocar, pôs completamente de parte. Apenas bordava afincadamente com o intuito de, na primeira ocasião, arranjar maneira de vender os bordados na cidade, para assim poder ajudar as pessoas necessitadas.

A Camareira observava-a todas as manhãs, e à medida que os dias passavam, achava-a mais triste e a emagrecer a olhos vistos, pelo que, certo dia, já muito preocupada, resolveu propor à Princesa ajudá-la no que quisesse, sem que o Rei tomasse conhecimento. A Princesa, agradecida, pediu-lhe que fosse à cidade vender todos os bordados que fizera e que entregasse todo o dinheiro da venda a uma instituição cujo nome indicou, mas com a condição de mais ninguém saber.

Como se deslocaria a Camareira até à cidade que era longe, nem uma nem a outra pensou.

Já a Camareira saia dos aposentos da Princesa, quando esta se lembrou do pormenor da deslocação à cidade. Chamou-a pedindo-lhe que trouxesse o Cocheiro junto de si. Aquela obedeceu prontamente, não sem sentir uma certa curiosidade, mas como a Princesa nada mais disse, limitou-se a cumprir as suas ordens.

O Cocheiro chegou pouco depois e a Princesa disse que precisava dum favor seu e ele, receoso, respondeu, que se não fosse contra as ordens do Rei, tudo faria. Perante esta resposta, a Princesa ficou perplexa e sem saber que fazer.

No dia seguinte, após uma noite mal dormida, a Princesa contou o sucedido à Camareira que também ficou preocupada e, sem que pudesse fazer fosse o que fosse para ajudar a Princesa, resolveu mandar um Mensageiro a Sua Majestade, dado que receava pelo seu estado de saúde que de dia para dia ia agravando. Era melhor que o Rei visse com os seus próprios olhos como se encontrava a filha.

O Rei apesar de ser mau e egoísta, amava a filha, de modo que assim que recebeu a mensagem, pôs-se a caminho. Quando chegou ao Castelo e viu a filha naquele estado de magreza e angústia, decidiu que deveria chamar o melhor Médico do Reino para observar a menina.

Mandou chamar o Cocheiro e entregou-lhe uma mensagem, para que fosse urgentemente levá-la ao endereçado.

A Camareira estava presente e aproveitou para pedir autorização a Sua Majestade para viajar com o Cocheiro, aproveitando assim para tratar de assunto de certa importância na cidade, o que vinha adiando há algum tempo, por não ter possibilidade de se deslocar.

O Rei, embora com pouca vontade, autorizou a Camareira a deslocar-se à cidade, pois o que o preocupava no momento, era a saúde de sua filha. Ordenou que partissem quanto antes e recomendou ao Cocheiro que não o queria de volta sem o Médico.

Partiram pela madrugada, tendo chegado de manhã cedo à cidade. Chegados ali, cada um seguiu o seu destino; o Cocheiro dirigiu-se a casa do Médico e a Camareira ao local que a Princesa indicara para a venda dos bordados.

O Médico não se encontrava em casa, mas no hospital a assistir a um doente cujo estado inspirava cuidados especiais e não o abandonaria nas próximas horas, pelo que resolveu que só partiria na manhã seguinte. Para isso,deixaria o seu doente entregue a outro Médico que o substituiria.

Assim, a Camareira teve tempo de vender todos os bordados e de entregar os donativos na Instituição indicada pela Princesa.

No dia seguinte, partiram bem cedo para o Castelo e chegados lá, o Médico dirigiu-se aos aposentos da Princesa, seguido da Camareira que através do olhar transmitiu à Princesa que tudo correra bem.

Após exame minucioso, o Médico afirmou ao Rei que o estado da Princesa não era grave, mas que poderia tornar-se se continuasse enclausurada no Castelo e naquele ermo. Aconselhava-o, portanto, a tirá-la dali ou, pelo menos, a deixá-la sair diariamente para um passeio a pé e uma vez por outra far-lhe-ia bem ir até à cidade.

O Rei olhou o Médico de soslaio, cofiou o bigode farto, manteve-se calado algum tempo e depois de alguns minutos de reflexão decidiu autorizar a Princesa a sair sempre que quisesse, mas acompanhada da Camareira.

Assim terminou o cativeiro da Princesa.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O PÃO-DE-LÓ, história de Ilona Bastos


Pela manhã, a mãe do David levantou-se, de caracóis revoltos, lavou as mãos e correu à cozinha.

Aí, ferveu o leite, que deitou sobre o chocolate em pó, cortou uma gorda fatia de pão-de-ló, e tudo dispôs num tabuleiro, com uma palhinha vermelha e um alvo guardanapo de papel.

Depois, foi a vez de acordar o David, ensonado, recusando abrir os olhos.

- Bom dia, filhote! - cantou a mãe. - Vamos acordar.

O menino murmurou:

- Não...

- São horas de levantar! - disse a mãe, olhando o relógio.

O menino voltou-se na cama e resmungou:

- Não.

- Olha que tens de ir para a escola e não deves chegar atrasado! - lembrou a mãe, destapando o dorminhoco.

O menino fechou os olhos com força e agarrou-se aos cobertores:

- Não!

- Ai! Ai! - zangou-se a mãe. - Tu não queres acordar e lá dentro o pão-de-ló não pára de reclamar.

- O pão-de-ló? - perguntou o David, abrindo os olhos.

- Sim, o pão-de-ló - respondeu a mãe, expedita. - Não sei o que combinaste com ele, mas insistiu imenso em falar contigo, não me deixou sossegada, e agora está na sala, à tua espera...

- O pão-de-ló! - exclamou o menino, de olhar brilhante, sentando-se na cama.

Depois, sorriu, maroto, estendendo os braços:

- Ajuda-me, mãe. Tenho uma reunião importante, agora.

- Sim? – perguntou, a mãe, aliviada, entregando ao filho a camisa e as calças de ganga. - Tens uma reunião na escola, com a professora?

O David torceu o nariz e acabou por soltar uma gargalhada:

- Não, mãe, não! Na sala, com o pão-de-ló!



sábado, 23 de outubro de 2010

A FLORINHA E OS MALMEQUERES, história da Avómi

Pintura de Mary Cassat, Spring Margot in the Garden (1900).
Metropolitan Museum of Art. Nova York.

A Florinha é uma menina muito morena, de olhos e cabelos castanhos, que vive numa vivenda com um lindo jardim à volta. Ela gosta muito de malmequeres, por isso o jardineiro, o senhor Cravo, faz questão de ter sempre um canteiro com aquelas flores muito bem cuidadas, para alegria da Florinha que logo pela manhã vai ao jardim dar os bons dias a todas as flores, deixando para último lugar a visita aos malmequeres, junto dos quais permanece muito tempo.

Os malmequeres orgulham-se da Florinha, porque ela é muito boazinha e trata-os com carinho.

Quando ela chega muito bem penteada, de lacinho no cabelo a condizer com o vestido vaporoso, comentam entre si a beleza da menina e sentem-se orgulhosos por ela ser tão amiga deles.

O Boby, fiel companheiro e amigo da Florinha, adora-a e, porque sabe do carinho que ela tem pelos malmequeres, não permite, seja a quem for, que se aproxime daquele canteiro, salvo o senhor Cravo, pois esse, o Boby sabe que só ali vai, para o cuidar.

A Florinha gosta de bonecas e faz lindas roupinhas para elas.

Uma vez, era Inverno, Florinha estava a fazer um vestido para uma das suas bonecas, lembrou-se que o Boby também devia sentir frio e, coitadinho, não tinha nenhum agasalho. Dali a imaginar uma linda capa para o amigo, foi um instante e em pouco estava a braços com a tarefa que, quando ficou concluída, além de muito bem feitinha, assentou perfeitamente no seu cão.

A Florinha tem também um gatinho, o Taky que se encheu de ciúmes quando viu o Boby com a linda capa e, enquanto não teve uma para si, não parou de miar.

Devido a tantas tarefas, a Florinha esteve alguns dias sem visitar as amigas flores que ficaram tristíssimas. Sobretudo os malmequeres que um após outro foram murchando.

O senhor Cravo, preocupado e sem saber que fazer - uma certeza ele tinha: não era por falta de serem cuidados com dedicação, que os malmequeres assim estavam - resolveu chamar o senhor Rosa, floricultor com grande sabedoria, que de certo iria descobrir a origem da doença.

O senhor Rosa, como habitualmente fazia, logo que foi chamado, compareceu e, depois de um excelente exame, não encontrou justificação para o acontecido, pelo que, à cautela, retirou uma porção de terra que levou para o laboratório a fim de ser analisada.

No dia seguinte, a Florinha que já não aguentava mais as saudades, foi ao jardim visitar as flores, mas ficou desolada ao chegar perto dos malmequeres.

O senhor Cravo dirigiu-se logo à menina, para a informar das diligências que fizera junto do floricultor e também para lhe pedir, que não pensasse que tinha descuidado o tratamento daquele canteiro. Todavia, ela estava tão triste, que não ouviu o jardineiro e, ao mesmo tempo que falava com as flores e as acariciava, as lágrimas caíam-lhe pela face.

O senhor Cravo não sabia que fazer para animar a menina e começou a ficar muito preocupado, mas, tal não foi a sua surpresa, quando dali a pouco os malmequeres começaram a endireitar-se e a ficar viçosos como se nada lhes tivesse acontecido.

Uns dias depois apareceu de novo o senhor Rosa com o resultado da análise que era satisfatório, pelo que não compreendia o que se estava a passar. Estava, por isso, ali, para colher novas amostras de terra, já que queria repetir a análise.

O senhor Cravo informou-o, nessa altura, da mudança de estado dos malmequeres, quando, após uns dias de ausência, a Florinha voltou a visitá-los.

- Pronto! Aí está a resposta - disse o senhor Rosa, satisfeito - Já não é necessário repetir a análise.

As flores são como as pessoas; gostam de se sentir acompanhadas e acarinhadas. O senhor Cravo deve recomendar à Florinha que não deixe de vir visitar os malmequeres todos os dias, ainda que seja por pouco tempo.

A Florinha nunca mais passou um dia sem visitar as suas flores e os malmequeres ficaram viçosos para sempre.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A CHUVA, história de Ilona Bastos

Naquele dia cinzento em que o Inverno chegou e fez o mercúrio descer nos termómetros, a mãe abriu a gaveta da cómoda e de lá retirou uma fofa camisola de lã às riscas.

- Toma esta camisola nova! - disse ela, entregando o agasalho ao filho, que o vestiu. - Hoje vais bem quentinho para a escola.

Pela rua fora, mãos nos bolsos, a assobiar, o Alexandre saiu cedo para as aulas, satisfeito e confortável dentro da sua nova camisola de lã.

E também a mãe ficou contente quando o menino, ao fim do dia, lhe contou que muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e que não tivera frio nenhum.

Então, a mãe lavou rapidamente a camisola e estendeu-a a secar, para o filho poder vesti-la no dia seguinte.

Aconteceu que nessa noite caiu uma bátega de água, e de manhã, quando a mãe quis apanhar a camisola, foi encontrá-la fresquinha, molhadinha e... com metade do tamanho - com a chuva, a bela camisola nova de lã encolhera!

- Que grande aborrecimento! - desabafou a mãe, espreitando pela janela. - E ainda por cima vai continuar a chover durante todo o dia, por isso é melhor levares a gabardina.

Lá seguiu o Alexandre para o colégio, radiante, de capuz enfiado na cabeça, dando pontapés nas pedras da calçada.

Quando regressou, no final da tarde, a mãe ficou aliviada ao verificar que o menino muito brincara, muito estudara, muito aprendera, e não se molhara. Só os sapatos não se apresentavam no seu estado normal: estavam um pouco húmidos... ou melhor, molhados... bom, na verdade, estavam completamente ensopados!

- Rapaz! Rapaz! - exasperou-se a mãe - O que andaste tu a fazer?

E rapidamente descalçou o menino, colocando os sapatos junto do aquecedor.

No dia seguinte, pela manhã, a mãe tentou calçar o Alexandre. Mas os sapatos, marotos, recusavam-se a deixar os pés entrar, empurrando-os para fora - com o banho e a secagem, os sapatos tinham encolhido!

- Que maçada! - queixou-se a mãe. - Esta chuva parece que não pára, e hoje terás de levar as botas de borracha.

Que prazer, para o Alexandre, caminhar sobre poças e pocinhas, chapinhando e saltando, espalhando água em redor. De gabardina e com botas, não havia chuva que lhe chegasse, e o menino sentia-se nas suas sete quintas!

Mas, ai dos meninos traquinas! Distraído como ia, o Alexandre não reparou num buraco, mesmo à entrada do colégio. Quis pular e espadanar e acabou estatelado, a tomar banho na lama.

Para que não se constipasse, a professora despiu-lhe a roupa molhada e vestiu-lhe calças, camisola e gabardina, que havia no colégio para estas ocasiões. Só que o Alexandre era pequeno, e a roupa era grande...

Bom, quando, ao entardecer, o menino voltou para casa, veio a mãe, ansiosa, recebê-lo à porta. E vendo a esvoaçante gabardina, bem abaixo dos joelhos, as largas mangas escondendo-lhe as mãos, lançou os braços ao céu e exclamou:

- Ai, meu filho! Desta vez foste tu que encolheste!

camisola - suéter

gabardina - capa de chuva

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A FORMIGA MÁGICA, história da Avómi

http://animais.com.sapo.pt/Tigre2.html


O Senhor Tigre tinha acabado de banhar-se no rio e decidira dar um passeio, aproveitando a sombra das árvores enormes que havia ao longo das margens. O sol estava quentíssimo, por isso tinha que procurar desviar-se dele, ou dali a pouco teria que voltar ao rio para se banhar de novo.

Mal começou a andar, o Senhor Tigre sentiu uma impressão numa pata.

- Mau! - disse o Tigre, arreliado - Ainda agora comecei o passeio e já estas ervas daninhas estão a meter-se comigo. Não estou a achar graça nenhuma! Que mania têm de fazer-me cócegas nas patas!

À medida que o Senhor Tigre ia andando a impressão ia aumentando. A dado momento, deixou de sentir cócegas e passou a sentir umas picadas fortes, tão fortes que lhe dificultavam o andar. Sentou-se à sombra duma árvore, examinou a pata, mas não viu nada. Continuou a andar, porém sentiu uma picada tão grande, que até os pêlos se lhe puseram em pé.

- Ora esta! Parece-me que tenho o passeio estragado. - disse ele.

Voltou a sentar-se, observou minuciosamente a pata e nada viu.

Recomeçou a caminhada, mas a situação ia de mal a pior e cada vez sentia as picadas com maior intensidade, pelo que se sentou de novo e disse:

- Seja o que for, hei-de descobrir e não sairei daqui sem que isso aconteça.

Procurou, procurou... por baixo, por cima, por todos os lados e nada de encontrar fosse o que fosse. Mas de repente:

- Que coisa será esta a mover-se tão rapidamente? Afinal estou enganado! Não se trata de erva nenhuma! Cá para mim é um pequeno insecto.

Espera lá insecto atrevido, que já te trato da saúde!

Todavia, antes que fosse apanhado, o insecto desapareceu por entre o pêlo do Senhor Tigre e por mais que este procurasse, não conseguiu encontrá-lo.

- Não sairei daqui sem que te apanhe, bicho atrevido! Hás-de convencer-te da tua insignificância, pois comigo não levarás a melhor. - ia dizendo o Senhor Tigre, furioso e vermelho que nem um tomate.

Palavras não eram ditas, o Senhor Tigre ouviu uma grande gargalhada e uma vozinha fina a dizer:

- Olha, olha, o Senhor Tigre e as suas manias de importante! Lá porque é um felino e eu uma pequena formiga, está convencido que levará a melhor!


imagem do blogue de Gabriel Perissé



- Ó Senhor Tigre, muito maior que o Senhor é o Senhor Elefante, e há dias, numa situação semelhante a esta, não queira saber as voltas que ele deu! Parecia um pião; dava voltas e voltas, esfregava as patas no chão, fazia um barulho que até a terra tremia, mas só se viu livre de mim quando me apeteceu mudar de ambiente.

Sabe, Senhor Tigre, canso-me de estar sempre no mesmo lugar, por isso aqui estou hoje, passeando pelas avenidas do seu corpo. O Senhor tem um pêlo tão bonito, que dá gosto apreciá-lo bem de perto, e tão macio, que apetece senti-lo.

- Ficas a saber, insecto minúsculo, que até caluniei as ervas daninhas por tua causa. Se te apanho!!!... - disse o Tigre.

- Ah, ah, ah!!!... Isso é que era bom! Não apanha, não!

- Como te chamas, bicharoco atrevido?

- Chamo-me Formiga Mágica. Apareço e desapareço quando quero.

- Formiga Mágica?! Nunca ouvi tal nome! - disse o Tigre, admirado.

Estás a mentir-me, bicho atrevido! Aparece lá, para eu te conhecer.

A Formiga Mágica calou-se muito caladinha, deu mais umas voltas pelo corpo do Senhor Tigre, enquanto ele foi barafustando sem qualquer resultado.

Cansado de suportar as picadas da formiga, resolveu voltar ao rio, para se banhar de novo, pois, pensava ele, talvez a Formiga Mágica fosse rio abaixo com a força da corrente e assim deixasse de o importunar.

A caminho do rio encontrou o Senhor Esquilo e perguntou-lhe:

- O Senhor Esquilo já ouviu falar da Formiga Mágica?


- Já, já! - respondeu o Esquilo - Até já senti as suas picadas que não são nada agradáveis, e só consegui libertar-me dela ao fim de três dias, quando apareceu o meu amigo Guardador de Rebanhos, que interpretou uma linda melodia com a sua flauta.

- E o que tem a ver o Guardador de Rebanhos e a flauta com a Formiga Mágica? - perguntou o Senhor Tigre.

- Tem muito. A Formiga Mágica gosta muito de música. Quando ouve música, se estiver hospedada entre o pêlo de algum animal, sai imediatamente, para ouvir melhor. É capaz de ficar horas a ouvir música; fica mesmo até à exaustão e acaba por adormecer.

- Diga-me lá, amigo Esquilo, onde posso encontrar o Guardador de Rebanhos?

- Deixe essa tarefa comigo, Senhor Tigre. Ele não está longe e daqui a alguns minutos o Senhor estará liberto desse incómodo.

- Deus o oiça, Senhor Esquilo. Estou tão saturado, que até já perdi a vontade de dar o passeio que tanto me apetecia quando o iniciei.

- Deixe comigo. - disse o Esquilo.

O Esquilo partiu ao encontro do Guardador de Rebanhos que andava ali perto com o seu rebanho. Mal se encontraram e o Senhor Esquilo lhe contou o que se passava, disponibilizou-se para ir em socorro do Senhor Tigre.

Foi tocando a sua flauta pelo caminho e ao chegar ao local onde se encontrava o Tigre, tocou uma linda melodia que sabia ser do agrado da Formiga Mágica. Esta, mal ouviu a música, saiu do corpo do Senhor Tigre, deitou-se à sombra duma pequena pedra e daí a algum tempo adormeceu hipnotizada por tão linda melodia.

Só assim o Senhor Tigre conseguiu ver-se livre dela e pode continuar o passeio ao longo do rio, que com tanto gosto iniciara.


sábado, 24 de julho de 2010

TIM, O Cocker Spaniel, história de Ilona Bastos

O Tim é um cãozinho felpudo como nenhum outro! O seu pêlo é dourado e as orelhas são longas. Não gosta de se deixar pentear, porque quer reconhecer bem o objecto que lhe estão a passar pelo corpo. A escova é uma coisa estranha, com pauzinhos espetados. E por isso tem que ser cheirada devidamente.


O Tim é traquinas, e quando percebe que não está a ser observado rói tudo o que consegue alcançar. Levanta-se nas duas patas traseiras, estende muito o focinho esperto, alonga a patita em pequenas sapatadas e consegue apanhar mais uma colher de pau. Depois, zumba, zumba, é só roer a concha de um lado e do outro, até o utensílio ficar reduzido a um pedaço de madeira grande, rodeado de muitos outros pedacinhos de madeira, todos espalhados pelo chão da cozinha.


O Tim é doido por feijão verde. E fiambre. E frango! Mas também come papel. Vai buscá-lo a qualquer lado, e corre ligeiro para um lugar seguro, fora das vistas dos donos. Aí, põe-se a mastigar, como quem masca pastilha elástica. Ora vejam só!


O Tim tem uma cauda pequenina, que não pára de abanar se o bichinho está feliz. Até parece um abanico, quando o cãozinho se levanta para saudar as visitas ansiadas ou para festejar a chegada dos donos regressados do trabalho.


O Tim é um descobridor de meias. Fareja-as a léguas e não consegue resistir-lhes. Aproxima-se do cesto da roupa, abre-o com o focinho e faz o seu trabalho: por entre camisolas, calças e pijamas, detecta um delicioso par de peúgas azuis! E quem consegue alcançá-lo, quando se afasta, lépido, em passinho saltitante, com um brilho maroto no olhar?


E olha que o Tim é mimalho! Apanha o osso com destreza e, rápido, trepa para cima do sofá, invadindo o colo dos donos sem cerimónia. Encosta-se, segura o seu tesouro entre as patinhas, e põe-se a roer sofregamente, satisfeito com as festas e as palavras carinhosas que os donos não lhe regateiam. Mas se alguém o chama, de fora, olha pelo canto do olho como só ele o faz, com o mimo e a prosápia de um cachorrinho sabido.


Ai Tim, Tim, quem resiste ao teu encanto!?