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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O MEU POMAR, história de Cecília Meireles

Pintura do blogue Oil Painting


Se eu tivesse um pomar, um pequeno pomar que fosse, não lhe poria grades à roda, como os outros proprietários. Não poria, a guardá-lo, um desses cães enormes, rancorosos, que andam sempre rondando os pomares... 

O meu pomar seria assim: todo aberto, para todos. E, quando o outono chegasse e as árvores ficassem cheias de frutos amarelos e vermelhos, nenhum pobrezinho teria fome, nenhuma criança choraria de sede, passando pelo meu pomar...

E, no inverno, ainda haveria lá onde alguém se abrigasse, quando chovesse muito ou fizesse muito frio...

E se eu tivesse um pomar, ele estaria sempre em festa, cheio de borboletas e de pássaros...

Como eu seria feliz, se tivesse um pomar!


Cecília Meireles

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

CHEGADA DO OUTONO, história da Avómi

Outono, foto e montagem de Ilona Bastos


O Verão terminou, chegou o Outono e o Pardal Feliz, esmorecido, dizia ao Pardal Contente:

- Que pena o Verão ter terminado! Éramos tão felizes à roda da piscina! Nem necessitávamos de nos deslocarmos para comer, pois os banhistas eram tão nossos amigos, que nos davam aquelas migalhas saborosas, que nos regalávamos todos. O que será de nós, durante o Outono e o Inverno? Estou deveras preocupado.

- Não te aflijas, Pardal Feliz! - disse o Pardal Contente - Havemos de encontrar uma solução. Para já, não nos podemos queixar, pois ainda não nos faltou comida nem a alegria das crianças à volta da piscina. É certo que o Sol está mais distante e os banhistas vão rareando, no entanto há sempre aqueles que não deixam, pelo facto de ser Outono ou Inverno, de vir diariamente dar o seu mergulho. Para além disso, nós somos privilegiados com todo este arvoredo e tantas flores, pelo que não nos faltarão sementinhas para enchermos as barriguitas.

- Mas aquelas migalhas...! - exclamou o Pardal Feliz, lambendo o biquito - Havemos de ter bem poucas! E de vez em quando as crianças deixavam cair o pãozinho ou o bolinho... Quem se deliciava, éramos nós! Agora as crianças estão a rarear e se aparecem é por pouco tempo, por isso não chegam a comer aqui.

- Paciência, companheiro! - disse o Pardal Contente - Teremos que nos contentar com o que for aparecendo e verás que não morreremos de fome.

O Pardal Alegre que escutava a conversa dos dois amigos, disse:

- Não sei que mais queres, Pardal Feliz. Até tens a sorte de poderes saltitar de galho em galho sem te deslocares para grandes distâncias! Não te preocupes, que nada te faltará.

- Ai meu amigo, tenho tanto medo de deixar de ser feliz!

- Qual carapuça! - exclamou o Pardal Alegre - Até te chamas Feliz, portanto nunca deixarás de o ser.

- Mas poderei deixar de me sentir feliz, o que não tem nada a ver com o nome que me puseram. - disse o Pardal Feliz.

- Não penses nisso, Pardal Feliz! Aqui, no sossego deste canto, ninguém deixará de ser feliz - disse o Pardal Contente - Repara nas árvores. Como vês, estão a perder as folhas, mas continuam a sorrir!


segunda-feira, 30 de julho de 2012

O RESTAURANTE DO JOAQUIM - 3ª Parte, história de Ilona Bastos


Pintura de Nicholas Roerich




- Pai, vou fazer uma expedição ao Himalaia. Quero subir ao Evereste, a montanha mais alta do mundo.

E o pai apenas suspirou, sob o olhar compreensivo da mãe.

Nos dias que se seguiram, empenharam-se todos três nos preparativos da viagem, que eram, naturalmente, complicados. Os montes Himalaia ficam muito longe, na Ásia, e, além disso, havia que obter os equipamentos próprios para a escalada, tendo em atenção as baixíssimas temperaturas que se fazem sentir nas grandes altitudes. Isto de subir ao Evereste, o mais alto cume do globo, era façanha de monta. Todos os pormenores deveriam ser cuidadosamente estudados.

Finalmente, chegou o dia da partida. E os pais despediram-se do seu filho que, determinado, largou em busca do topo do mundo.

 Depois, chegaram as notícias espaçadas, como era habitual: de como a subida fora difícil, mas bela; da descrição dos acampamentos onde a neve e o gelo surgiam como únicas companhias; do momento espantoso em que, num esforço final, asteara a bandeira verde-rubra no pico mais alto; da descida íngreme e escarpada; da estadia num convento budista, em retiro espiritual.

E muitos meses depois, longo tempo passado, o Joaquim regressou. Como de costume, vinha calmo e compenetrado, aceitando com tranquilidade o acolhimento entusiástico de que era alvo.

O restaurante embandeirara-se para o receber, e estava completamente cheio. Famílias inteiras tinham viajado de todo o país, em camionetas, de automóvel ou de comboio, só para o avistarem. As crianças ansiavam por um autógrafo do seu herói. Os adultos admiravam a sua bravura.

Os corredores achavam-se apinhados, e nas salas de refeição todos os cantos haviam sido aproveitados. Não havia lugar nem para mais uma pessoa. Todos queriam vê-lo e felicitá-lo. Aguardavam, com expectativa, que o Joaquim desvendasse os seus projectos!

O pai e a mãe, reconfortados pela presença do filho, não cabiam em si de contentes, e desejavam saborear a sua estadia junto deles. É claro que sabiam que o Joaquim ficaria por pouco tempo, como usava fazer, pois já devia ter mais planos para o futuro.




Desta vez, foi ele quem chamou o assunto.
Sentado à mesa do pequeno almoço, com a mãe e o pai, o Joaquim anunciou:

  - Pais, gostei muito da vida que levei até agora e de todas as viagens que fiz. Sonhei ir o mais longe que é possível ir, e viajei até Marte. Desejei conhecer todo o planeta em que vivemos, e visitei cada um dos seus oceanos e continentes.  Quis subir até ao cume mais elevado da Terra, e realizei a escalada. Contudo, percebi que me falta alguma coisa, algo de muito importante, que me é mesmo essencial. Por isso, vou mudar de vida.

- Sim, filho?! - exclamaram os pais, expectantes.

- Vou tomar conta do restaurante e assentar. Preciso de um lar e da vossa companhia.   

Escusado será narrar a alegria daquele casal que tanto amava o seu filho e para ele desejava o melhor!

Como decidira, o Joaquim assentou. Casou lá na terra, teve filhos, acompanhou os pais e tomou conta do restaurante.

O Restaurante do Joaquim tornou-se, afinal, no restaurante mais famoso do planeta, por pertencer ao Joaquim - o homem que pisou Marte, navegou sozinho à volta da Terra, e subiu ao cume mais alto do globo.

Feliz, com os filhos pequeninos nos braços, o Joaquim conta-lhes, por vezes, as suas aventuras. E exorta-os a tomarem conta do restaurante.
Amanhã, pela manhã, já está combinado, o Joaquim vai começar a ensinar os meninos a nadar!


domingo, 1 de julho de 2012

A CABANA COR DE ROSA, história da Avómi

Pintura de William Charles Perry

 Certo dia, andavam três meninos a fazer corridas numa praia, quando viram, ao longe, uma casinha toda cor de rosa; as paredes eram cor de rosa, as portas eram cor de rosa, as janelas eram cor de rosa e até o telhado era cor de rosa.

Os meninos acharam tanta graça que, curiosos, correram logo para lá, pois queriam ver bem de perto, que casa era aquela. À distância que antes de encontravam, não podiam ver, exactamente, que tipo de casa era, mas quando se aproximaram, viram que se tratava duma cabana tão bonita, que ficaram maravilhados.

A primeira coisa que o Tomás, o Vasco e o Miguel quiseram saber, foi quem vivia naquela cabana, pelo que, bateram à porta. Bateram, bateram, mas ninguém respondeu. Então, resolveram ficar por ali, a brincar, talvez mais tarde aparecesse o dono ou a dona daquela linda cabana.

Já começava a escurecer, quando os meninos avistaram, a uma distância grande, um vulto. Pareceu-lhes uma menina, porém estava tão afastado, que não podiam garantir que fosse. Quando o vulto se aproximou, então sim, depararam com uma linda menina de cabelos e olhos castanhos, vestida de cor de rosa. A menina era tão bonita, que eles ficaram boquiabertos a olhá-la e perguntavam-se, porque viveria ela na praia, mesmo à beira-mar.

A menina também se admirou, quando viu aqueles meninos, àquela hora da noite, a passear pela praia, e perguntou-lhes quem eram e o que faziam ali. Eles responderam, que andavam a brincar na outra extremidade da praia, quando avistaram aquela casa e quiseram aproximar-se, para vê-la de perto, e também para saberem quem ali morava. Como após baterem à porta, constataram que não estava ninguém em casa, decidiram aguardar pela chegada de alguém, por isso ainda estavam ali, apesar da hora tardia. Por sorte, estava um luar que parecia dia e puderam continuar a brincar.

A menina perguntou aos meninos se podia brincar com eles, aqueles responderam que sim, mas que antes, queriam saber a razão por que uma menina tão bonita, estava na praia sozinha e a viver numa cabana. Ela riu-se e respondeu-lhes que não vivia na cabana, que aquela cabana era apenas uma casinha onde tinha muitos brinquedos, numa sala enorme, onde costumava brincar com os seus amigos. Tinha ainda uma sala de refeições, para, após as brincadeiras, ela e os amigos se consolarem a comer uns ricos lanchinhos confeccionados pela cozinheira e pela ajudante.

Pormenor de Postal de 1890


- A cabana parece pequena, mas vocês vão ver... – disse a menina - Vamos então brincar um bocadinho e depois mostro-vos a cabana por dentro.

- É uma ideia óptima – disse um dos meninos – Mas onde é a tua casa? É muito longe daqui?

- Não. – respondeu ela – Vês ali aquela escadinha? Sobe-se a escada e a minha casa é aquela que fica lá em cima, onde há muitas árvores de grande porte. Estão a ver?

- Sim, sim. – responderam todos.

Os meninos estavam cada vez mais admirados, pois aquela casa era um palácio enorme construído entre muralhas e, contava uma lenda, que era habitado por um rei que ninguém conhecia.

- Então vá, vamos brincar. – disse a menina.

- Mas tu és uma princesa!... – exclamou um dos meninos – As princesas não costumam brincar com os meninos pobres como nós! E se os teus pais ficam zangados contigo, por estares a brincar com meninos da rua?

- Não se preocupem. – respondeu a princesa – Eu sei o que faço.

Brincaram, brincaram... Já era madrugada, quando a princesa os levou para a cabana, porque estavam muito cansados e cheios de sono.

Quando entraram na cabana, depararam com uma mesa enorme repleta das iguarias mais variadas, que lhes foram servidas com todo o requinte, por empregados com fardas muito bonitas com galões e botões dourados.

 Terminada a refeição que muito bem lhes soube, os meninos, sob a orientação da menina, começaram a deslocar-se dentro da cabana... Aquilo não era uma cabana, mas sim um palácio. Quem via por fora, pensava que era uma cabana pequenina, mas lá dentro havia uns corredores subterrâneos que os  conduziram a quartos maravilhosos. Eles não queriam acreditar no que estavam a ver, mas o cansaço era grande e logo que chegaram aos respectivos quartos, deitaram-se e adormeceram profundamente.

No dia seguinte acordaram com o toque de uma campainha e levantaram-se ainda ensonados, sem saberem onde estavam, mas a chegada da princesa, logo os fez lembrar o que se tinha passado na véspera. A princesa disse-lhes:

- Venham comigo, pois tenho uma surpresa para todos.

- Uma surpresa?! – perguntou o Tomás – Só estão a acontecer surpresas, desde que chegámos à praia!

- Pois é! – exclamou o Vasco – Temos tido surpresas agradáveis e penso que a princesa nos vai surpreender com alguma coisa boa.

- Como te chamas? – perguntou o Miguel à princesa.

- Chamo-me Carlota – respondeu a princesa. A surpresa que eu tenho para os meus amigos é a seguinte:

- Vocês disseram-me ontem, que vivem na rua, e eu fiquei a pensar nisso. Como tenho uma casa muito grande e quartos suficientes para todos, estão convidados a viver nesta casa, com todo o conforto que ela tem para vos oferecer. Serão ensinados pelos meus professores, farão parte da minha família. Os meus pais ficarão muito contentes, quando lhes anunciar que a nossa família vai aumentar. Eles gostavam de ter muitos filhos, mas infelizmente, isso não aconteceu. Eu também gostava de ter irmãos, porém sou filha única, por isso, ficaremos todos satisfeitos, já que penso que vocês aceitarão com agrado, a minha proposta.

  
 Aguarela de António José Baptista


- Aceitamos e agradecemos muito, linda princesa. – disse o Miguel, abraçando-a. – Esta foi a melhor surpresa que tive em toda a minha vida, assim como os meus amigos. Nós nunca tivemos família nem sabemos quem são os nossos pais.

- Estou a sonhar!... – exclamou o Vasco – isto não é verdade! Esta princesa é a fingir, assim como este palácio, a cabana...

- Não estás a sonhar, não. – disse a princesa – É tudo verdade.

- Não acredito! – acrescentou ainda o Tomás – Tu deves ser uma fada que nos apareceu e daqui a pouco desapareces e lá se vão os nossos sonhos por água abaixo.

- De modo nenhum! – continuou a princesa – Vou já levar-vos junto dos meus pais, para que fiquem a conhecê-los.

Caminharam por corredores e corredores, subiram escadas e escadas, a princesa foi-lhes mostrando todas as divisões, até que, finalmente, chegaram a uma sala onde se encontravam os pais da princesa e, esta disse-lhes.

- Estes meninos não têm família nem casa onde morar. Vivem na rua e eu queria que eles viessem para a nossa casa e fizessem parte da nossa família.

Os ilustres Senhores, após longa conversa com os meninos e depois de terem a certeza que eles queriam mesmo ficar a viver naquela casa e a fazer parte da família, chamaram os empregados do palácio, para serem apresentados aos novos moradores e também para ordenarem que preparassem os aposentos destinados a cada um deles.

Dali em diante, os moradores daquele palácio passaram a ser mais felizes. O rei que antes não saía de casa, passou a sair com a família da qual faziam parte aqueles meninos que um dia percorreram uma praia de uma ponta à outra, para verem uma casa cor de rosa que, afinal, era uma cabana...



sábado, 17 de março de 2012

O RESTAURANTE DO JOAQUIM - 2ª Parte, história de Ilona Bastos

 ilustração de Ilona Bastos

Espantados e um pouco desiludidos, os pais do Joaquim mandaram-no para a América, e na NASA foi bem recebido e apreciado o seu trabalho.

Tendo-se tornado necessário reunir uma equipa para descer no planeta Marte, o Joaquim foi nela incluído. Passou por um treino rigoroso e preparou-se até naquelas câmaras que simulam a inexistência de gravidade, onde tudo anda solto pelo ar, dando cambalhotas e reviravoltas: pilotos, esferográficas e papéis!

Pois foi tal o empenho do Joaquim que o escolheram para ser o primeiro homem a pisar Marte. Que grande alegria sentiram os seus pais ao verem o filho, pela televisão, a caminhar no planeta vermelho!

De regresso à Terra, o Joaquim visitou a casa paterna. E o pai, esperançoso, sondou-o:
 - Agora que foste a Marte, o que queres fazer, Joaquim?

O rapaz não hesitou:
- Não desejo mais ser astronauta. Já fui a Marte, e não está prevista a visita a nenhum outro planeta nos próximos anos. Por isso, se continuar na NASA não mais viajarei. Tenho que mudar de vida.

O pai arriscou:
 - Queres, então, tomar conta do restaurante?

O Joaquim sorriu e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
- Pai, se não posso ir para o espaço e para as estrelas, como desejava, tenho que conhecer o meu planeta. Quero dar a volta ao mundo.

E os pais lá ajudaram o Joaquim a preparar um barco, pequeno mas sólido, que lhe permitisse navegar os cinco grandes oceanos: o Glacial-Árctico, o Glacial-Antárctico, o Atlântico, o Pacífico e o Índico. A embarcação teria que resistir à fúria dos temporais e às zonas de calmaria em que o vento se recusaria a soprar. O Joaquim iria suportar a solidão, as noites ao leme, sem dormir, o braço de ferro com a imensidão das águas.

Os mantimentos, já se vê, foram fornecidos pelo restaurante. E, assim, completamente equipado, partiu o Joaquim para a viagem à volta do mundo.

Passaram-se os dias, as semanas, os meses, e de quando em quando ouviam-se notícias da odisseia: que o Joaquim aportara numa ilha e contactara os seus habitantes, pertencentes a uma civilização antiga e praticamente desconhecida; que chegara a Nova York e na Grande Maçã fora recebido pelo mayor com enorme pompa e circunstância; que salvara uma tribo de beduínos, junto à costa de África, numa aventura sem igual; que assistira à erupção de um vulcão e ao nascimento de novas ilhas; que, lá para o sul, sobrevivera a um maremoto; que, no oriente, se alimentara de exóticas iguarias, completamente estranhas aos habituais petiscos fornecidos pelo seu pai.

O pai que, evidentemente, ia gerindo e desenvolvendo o restaurante do Joaquim, com enorme zelo e empenho. 

Um ano volvido, regressou o filho pródigo. Que grande entusiasmo para os pais, amigos e conhecidos! Conhecidos que cada vez eram mais, dada a ampla cobertura que os jornais, a televisão e a rádio davam às proezas do Joaquim.

Que expectativa para o pai, que desse filho já tudo esperava!
- Então, meu rapaz, o que tencionas fazer? - perguntou-lhe, quando os festejos terminaram.

O Joaquim manteve o ar sério e impassível de sempre.
- Pai, vou fazer uma expedição ao Himalaia. Quero subir ao Evereste, a montanha mais alta do mundo.


CONTINUA

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A RAPOSA PREGUIÇOSA, história da Avómi

Era domingo e a Gazela e a Raposa conversavam, enquanto davam um passeio.

- Hoje é véspera de segunda-feira. - disse a Gazela.
- Eu sei - disse a Raposa.
- Eu sei que tu sabes, mas estou a lembrar-me, que amanhã terei que me levantar muito cedo, porque tenho muitas coisas a fazer - disse a Gazela.
- Eu sei - disse de novo a Raposa.
- Eu sei que tu sabes, mas estou a lembrar-me, que talvez possas dar-me uma ajuda. - acrescentou a Gazela.
- Ah... Não posso! Amanhã tenho um compromisso. - disse a Raposa.
- E na terça-feira? - perguntou a Gazela.
- Na terça feira tenho outro compromisso. - respondeu a Raposa.
- Ah, sim, percebo... - disse a Gazela com desdém.
- Eu sei que tu percebes, por isso nem devias pedir-me ajuda. - disse a Raposa.

Gazela-dorcada, do Site Saúde Animal

- Eu só queria que te tornasses útil. - continuou a Gazela.
- E sou! - disse a Raposa com ar enfatuado.
- Qual carapuça! Tu, útil?! Nem digas semelhante coisa, que parece mal! - disse a Gazela, já irritada com a Raposa.
- Isso é que sou! - insistiu a Raposa. - Senão repara: Amanhã logo pela manhã irei à caça com os meus amigos; eles caçarão e eu far-lhes-ei companhia.
- Não esperava que fizesses outra coisa! - exclamou a Gazela com ar de troça.
A Raposa acrescentou ainda:
- É costume os meus amigos prepararem uma boa refeição após a caçada e enquanto isso acontece, durmo sempre uma soneca.
- Para isso tu serves. - disse a Gazela - O pior é se a soneca se prolonga e ficas sem almoço, o que seria bem feito, para deixares de ser preguiçosa.
- Isso é que não fico, porque os meus amigos conhecem-me bem e hão-de acordar-me quando tudo estiver preparado. Só terei que lavar as mãos e sentar-me à mesa - disse a Raposa com ar zombeteiro.
Após o almoço costumamos dar um passeio pela margem do rio, onde as bonitas árvores fazem uma sombra que dá gosto. Normalmente canso-me a meio do caminho e volto a dormir deitadinha à sombra duma árvore, enquanto eles andam, andam... para, segundo dizem, fazerem a digestão.
Eu cá não preciso de fazer digestão nenhuma, preciso é de descansar.

- Tens razão! Precisas de descansar as fadigas de quem nada faz, não é? És mesmo descarada - disse a Gazela, indignada. - Que dirão aqueles que trabalham desde manhã até à noite?

- Esses não se cansam, por isso é que trabalham - disse a Raposa a sorrir.

- Bem, de ti não há nada a esperar. - disse a Gazela - Contudo não quero entrar em conflito, mas tão só dizer-te, que és o animal mais preguiçoso que conheci em toda a minha vida. Porém, é estranho que assim sejas, porque os teus pais e os teus irmãos são bastante trabalhadores.

- Pois, por isso mesmo é que não preciso de trabalhar! - disse a Raposa esfregando as mãos de contente - Só se fosse pateta! Adoro sentar-me a olhar os outros enquanto trabalham. Às vezes os meus irmãos irritam-se e chamam-me capataz, mas não me importo. Também ficam furiosos quando dou sugestões que, diga-se em abono da verdade, nem sempre são frutuosas.

Um dia destes saí-me mal e apanhei um valente susto, porque um dos meus irmãos atirou-me com um prato, quando eu, muito bem refastelada numa cadeira, lhe dizia como devia pôr a mesa. E mais... que a pusesse depressa.

Por sorte, ele não teve pontaria e o prato foi estatelar-se no chão e ficou em fanicos.
- Estás a ver? - disse a Gazela - O teu irmão teve razão para se zangar contigo. Claro que não acho bem que te tenha atirado o prato, pois isso não se deve fazer, mas lá que devem perder a paciência contigo, acredito.
Mas agora reparo, é tardíssimo!... Vou, mas é para casa, pois quero fazer umas coisas ainda hoje. O meu tempo tem que ser bem orientado ou não me chegará para fazer tudo que programo para cada dia.

- Continua a proceder assim e não descanses, e verás o que te vai acontecer. - disse a Raposa - Olha que quem te avisa teu amigo é!
Continua a trabalhar, que eu continuarei a descansar, minha amiga.

- Eu não digo que, contigo, não há nada a fazer?!...- disse ainda a Gazela.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A HISTÓRIA DA GLÓRIA, história da Avómi


Imagem da Internet

A Ritinha gosta muito de histórias, sabe algumas e gosta muito das histórias que a mãe conta:

Livrinho amarelo
gancho no cabelo
Ritinha conta
histórias que encanta

Muito inteligente
também divertida
faz rir toda a gente
e é muito amiga

logo pela manhã
acorda a mamã
- Conta uma história!
aquela da Glória!

Então a mãe conta-lhe a história da Glória:

Mãe - A Glória é uma menina de quatro anos que está numa Creche, porque a mãe trabalha e não pode dar-lhe assistência durante o dia.

Rita - É como eu, não é mamã?

Mãe - É sim, minha filha! Posso continuar?

Rita - Sim, mamã, que eu gosto muito das tuas histórias!

Mãe - Logo pela manhã vai o pai ou a mãe levá-la à Creche, despedem-se com um beijinho e vão para os seus empregos.

Rita - Para ganhar dinheirinho, não é mamã?

Mãe - Claro, Ritinha! A menina já sabe que é! Interrompe tantas vezes, que daqui a pouco vou esquecer-me da história.
 
Rita - Pronto, mamã! Prometo que não interrompo mais.

Mãe - A Glória fica tristinha quando vê os pais partir, mas começa a brincar com as outras crianças e distrai-se. De vez em quando chegam-lhe as saudades e pede à Educadora para telefonar à mamã, porque a mamã deve estar com saudades.
A Educadora acha muita graça, uma vez por outra faz-lhe a vontade e delicia-se a ouvir o diálogo que é o seguinte:

- "Mamã, quando é que vens buscar-me? Estou a brincar muito bem com as minhas amigas e com os meus amigos, mas às vezes também me apetece brincar contigo e com o papá! Não sei porquê, mas sinto saudades!...
Ó mamã, quando logo me vieres buscar e formos para casa, brincas comigo às mães e filhas? Olha, eu vou ser a mãe, está bem? Faço o almocinho, o jantarinho, ponho a mesa... Tu ajudas-me, mamã?"

- "Ajudo! - diz a mãe do outro lado - Mas logo conversaremos melhor. Agora temos que desligar. A mamã tem que fazer e a menina também! Beijinho e até logo, Glória."

- "Até logo, mamã! Vem cedo! Diz ao papá para vir também, para brincarmos todos."

- "Está bem, minha filha! Até logo!..."

A Glória desliga o telefone muito contente e vai a correr contar à Educadora toda a conversa que teve com a mãe. Depois corre para os companheiros, conta-lhes também e acrescenta:

- "Eu brinco muito com o papá e a mamã! Eles contam-me histórias muito bonitas e eu conto-lhes as que sei. Conto sempre aquelas histórias que a nossa Educadora, a Isabel, costuma contar-nos aqui na Creche, e eles gostam muito. Todos os dias me pedem para lhes contar uma história nova.
Lembram-se daquela do Passarinho de Oiro? Hoje vou pedir à mamã para ma contar. Como já lha contei há muito tempo, quero ver se ela ainda se lembra. A mamã é tão esquecida! Às vezes, no dia seguinte já não se recorda do que me tinha prometido na véspera.

Nós sabemos histórias muito bonitas, porque a Isabel sabe muitas e tem muito jeito para as contar! Aquela do Passarinho de Oiro foi-nos contada por ela, ainda éramos bem pequeninos! Lembram-se? Ela até teve que a contar muitas vezes!...
Quando sairmos da Creche para irmos para a Escola Primária, havemos de ter saudades da nossa Educadora que é tão nossa amiga!..."

- "Sim, sim! Havemos de ter muitas saudades da Isabel, mas poderemos vir visitá-la, de vez em quando. - disseram os outros meninos."

Mãe - Termina aqui a História da Glória. Gostou?

Rita - Gostei muito, mamã, mas cá para mim essa História da Glória parece igualzinha ao que se passa comigo na Creche! Tu não inventaste, nem nada!?!...

- Não, minha filha! Não inventei, mas existem histórias muito parecidas com a realidade, por isso não admira que te identifiques com a Glória.


sábado, 3 de setembro de 2011

O RESTAURANTE DO JOAQUIM - 1ª Parte, história de Ilona Bastos

Ilustração de Ilona Bastos
Era uma vez um casal que teve um filho. E, porque o amava muito e achou o nome bonito, baptizou-o de Joaquim.

Para garantir-lhe o futuro, decidiu o pai construir um restaurante - pedra sobre pedra, bem ligadas com cimento. A cobrir, colocou-lhe um vistoso telhado de argila vermelha, e, por dentro, amplas mesas e toalhas brancas. Assim era o Restaurante do Joaquim.

No primeiro aniversário do filho, levou-o o pai ao restaurante, ansioso por assistir à alegria infantil da criança perante o luzir dos talheres sobre as mesas e o brilhar dos copos sob a luz dos candeeiros.

Porém, a verdade é que o menino pouca piada achou àquilo tudo, mais entretido que estava em puxar ao pai as suíças e os bigodes. Mas o pai, enternecido, não se cansava de dizer:
- É o teu futuro, Joaquim, o teu restaurante.

O Joaquim cresceu cheio de vida e curiosidade por tudo o que o rodeava. E cedo manifestou o desejo de aprender a nadar. Logo os pais providenciaram para que o fizesse, e o rapaz depressa se tornou sério candidato a campeão.
Ilustração de Ilona Bastos

Na escola, o Joaquim mostrava-se bom aluno, sabia as lições, e com interesse aprendia tudo o que os professores ensinavam.

Entusiasmado, o pai ansiava pelo dia em que o Joaquim, terminados os estudos, tomasse conta do seu restaurante.

O restaurante que, diga-se de passagem, ocupava todos os tempos do pai de Joaquim, que dele cuidava com esmero, aperfeiçoando cada prato, cada iguaria, cada detalhe, reunindo dessa forma uma fiel clientela.

Mas o Joaquim parecia ter planos diferentes, e desejava continuar a estudar. Surgiu-lhe a ideia de que, se se movia na água, devia mover-se no ar. Queria aprender a pilotar aviões.

E os pais tudo fizeram para que o Joaquim se matriculasse na adequada escola e tirasse o seu brevê.

Que cuidados, que orgulho, os daqueles pais! O seu filho só lhes dava alegrias! E para que tudo ficasse bem, só faltava que o Joaquim se dedicasse ao restaurante.

No dia do exame final, quando, fardado, empunhava o diploma, o pai falou-lhe no assunto, mas o Joaquim, muito sério, confidenciou:

- Pai, tudo isto tem sido muito interessante, mas na verdade eu quero é ser astronauta. Quero ir para a América, trabalhar na NASA e viajar pelo espaço.


domingo, 22 de maio de 2011

UM RELÓGIO FIXE, história de Ilona Bastos




Num domingo, ao almoço, sem esperar, o Tiago recebeu do avô um magnífico relógio.

- Repara! - disse-lhe o avô. - O relógio tem luz no mostrador, todas as horas estão marcadas com algarismos, é à prova de água e funciona a pilhas, por isso não precisas de lhe dar corda...

- Fixe! - exclamou o menino, maravilhado. – Muito obrigado, avô. Vou andar sempre com ele.

E assim fez. O menino colocou o relógio no pulso, empoleirou-se ao colo da mãe para que lhe relembrasse a leitura das horas, e a partir desse dia não mais largou o relógio.

Na escola foi um sucesso, naturalmente, pois de todos os relógios presentes - que nos braços das crianças cronometravam mil e uma tropelias - o relógio do Tiago era o mais fantástico, o mais moderno, enfim, o mais fixe... Nunca se atrasava, nem adiantava. E ao menino não dava trabalho algum, pois nem de corda o relógio precisava, sempre enérgico, sempre dinâmico, sempre pontual!

E, também, assim, o Tiago passou a ser o aluno mais pontual da sua sala!
 
Ora acontece que numa noite, encontrando-se o menino a dormir, começou o relógio a sentir-se indisposto: eram os braços doridos - isto é, os ponteiros sem força; era uma forte dor de cabeça - ou seja, o mecanismo a fraquejar; eram umas tonturas tais que o ponteiro dos segundos - aquele mais veloz e mais traquinas, com uma energia ímpar - dava um passo à frente e outro atrás, sem saber se avançar se recuar.

O relógio ainda tentou chamar a atenção do menino, soltando pics e tics e tucs - o que nele não era nada habitual.

Mas o Tiago não acordou, voltou-se para o outro lado e continuou a sonhar.
       
De manhã é que foi a decepção, quando o menino percebeu que o relógio parara. Já  o sol ia alto, inundando de luz toda a casa, e os ponteiros marcavam as três horas da madrugada, como se ainda fosse noite e as estrelas cintilassem no céu.

- O relógio não funciona! O relógio está doente! - gritou o Tiago, aflito.

O pai e a mãe correram para ver o que se passava, e observaram atentamente o mostrador. O pai aproximou o relógio do ouvido, verificou os botões da luz e de acertar os ponteiros, e abanou a cabeça, muito sério.

- É grave? - perguntou o menino, ansioso.

- Está muito fraco. - diagnosticou o pai. - Precisa de alimento.

- Alimento?! - exclamou o menino, aliviado. - Se é só isso, resolve-se já!

E, de um pulo, correu em direcção à cozinha.

Do quarto, os pais ouviram-no espreitar o frigorífico, bater as portas dos armários, abrir e fechar gavetas, mexer em loiças e talheres. Daí a pouco, o Tiago regressava, vitorioso.

- Cá está! Leite com cereais! – anunciou. - O alimento próprio para um relógio fixe!
Os pais caíram na gargalhada e a mãe, sem parar de rir, dirigiu-se à escrivaninha do escritório, trazendo uma peça pequenina e prateada, semelhante a um botão, que entregou ao pai.

- Não estou a perceber a razão de tanta risota... - disse o garoto, meio queixoso, meio divertido.

- É que o alimento do relógio é esta pilha. - esclareceu o pai. – Vou colocá-la aqui e o relógio fica como novo...

- Ou seja, volta a ser um relógio fixe - concluiu o menino.

- Exactamente! - aprovou a mãe. - Mas agora que o relógio já está em forma, precisamos de dar alimento, também, a um miúdo fixe...

- Pilhas! - gritou o Tiago, maroto.
       
- Errado! - corrigiram os pais, risonhos. - Leite com cereais!


sábado, 2 de abril de 2011

A FORMIGUINHA BRANCA E A MINHOCA COR-DE-ROSA (CONT.), história da Avómi

Patchwork - composição de imagens retiradas da internet


Passou um certo tempo e um dia a Formiguinha Branca encontrou a Minhoca Cor-de-rosa, que se dirigia a casa apressadamente, carregada de compras.

A Formiguinha Branca ficou muito admirada pelo desembaraço da Minhoca e dirigiu-se a ela, dizendo:

- Olá, Minhoca Cor-de-rosa! Que grande saco levas! Não sei como podes com ele! Forte sou eu e acho que não conseguiria transportar um saco tão pesado.

- Ai, minha amiga, nem te digo nada! Tenho tido tanto que fazer, que me descuidei com as compras, por isso trago isto tudo. Venho apressada, porque quero ter o almoço pronto a horas. Detesto atrasar-me seja para o que for.

A Formiguinha Branca ficou de boquinha fechada, sem saber que dizer e a Minhoca Cor-de-rosa continuou:

- Emudeceste, não é verdade? Imagino! Quando me conheceste eu não era assim, mas depois de ter falado contigo, passei a ser uma excelente dona de casa. Até as minhas amigas ficam admiradas. Posso dizer-te, Formiguinha Branca, que nunca mais me interessei com o que se passa nos outros lares e a verdade é que agora tenho a minha casa bem arrumada e quando quero qualquer coisa, sei onde ir buscar. É certo que trabalho muito, mas é compensador. E mais, eu não sabia fazer nada e agora não tenho qualquer dificuldade em fazer seja o que for. Até já sei cozinhar, imagina!
A propósito Formiguinha Branca, queres dar-me o prazer da tua companhia para o almoço?

A Formiguinha Branca, admirada, convencida que estava a sonhar, não respondeu logo.

- Estás a ouvir-me, Formiguinha Branca? - perguntou a Minhoca Cor-de-rosa.

- Estou, estou! - respondeu a Formiguinha, atrapalhada - Desculpa ter-me distraído, mas estava a pensar...

- Imagino o que estarias a pensar, mas convidei-te para almoçar! - disse a Minhoca Cor-de-rosa.

- Não, obrigada! Estou de passagem e não quero demorar-me. - respondeu a Formiguinha Branca.

- Dar-me-ias muito prazer, minha amiga! - disse a Minhoca - Vá, vem daí que não te arrependerás, pois irás verificar com os teus próprios olhos, como acatei e beneficio dos conselhos que me deste naquele dia.

- Hoje não, minha amiga, porque tenho um compromisso. Virei outro dia, com muito gosto. - disse a Formiguinha - Mas não é preciso ir a tua casa, para acreditar que seguiste o meu conselho! Basta olhar para a tua cara, para me certificar da tua mudança; até pareces mais feliz.

- Sem dúvida, Formiguinha Branca, sou muito feliz! - disse a Minhoca - A minha curiosidade só foi útil, porque te conheci e me deste uma boa sarabanda, o que nunca me tinham feito antes. Bendita hora! No mesmo dia jurei que havia de me modificar e deixar de querer saber o que se passava na casa alheia. Naquela época nunca tinha tempo para nada e andava sempre cansada. Agora tenho tempo para tudo. Gostava muito que visses a minha casa, Formiguinha Branca! Até dá gosto viver nela.

- Hoje não posso, mas virei amanhã. Pode ser amanhã? Não te faz diferença?

- Pode, pode! Quanto mais cedo, melhor.

No dia seguinte a Formiguinha Branca levantou-se muito cedo, arrumou a casa, tomou o seu banhinho, arranjou-se e foi, como tinha prometido, a casa da Minhoca Cor-de-rosa, que a recebeu com todo o requinte.

A Formiguinha Branca gostou muito da casa da Minhoca Cor-de-rosa, pois estava tão asseada e arranjada, que dava gosto ver.

A partir de então passaram a visitar-se e ficaram muito amigas.



sexta-feira, 4 de março de 2011

O SENHOR CARNAVAL, história da Avómi

 Cabeçudos no Carnaval de Torres Vedras

Muito discretamente, o Senhor Carnaval vai preparando coisas engraçadíssimas ao longo do ano, para durante três dias divertir as pessoas.

Este Senhor é muito alegre e bem disposto; transmite alegria às pessoas e tem muita paciência para fazer coisas minuciosas e trabalhosas. Por ser uma pessoa simpática, encontra sempre colaboradores que muito o ajudam nas tarefas carnavalescas. Faz fatos lindíssimos de sedas brilhantes e cores garridas ornamentados de missangas, pérolas, lantejoulas e outros ornamentos, todos eles muito trabalhosos. Faz chapéus de plumas altas e dos mais variados modelos, sempre muito decorativos.

Imaginem que o Senhor Carnaval e seus colaboradores ainda ornamentam os Carros Alegóricos, com arte e bom gosto, para o que é necessário muito tempo e paciência, e têm todo este trabalho para um Cortejo de duas ou três horas.

O Cortejo Carnavalesco é, normalmente, feito nas avenidas principais das cidades, vilas e aldeias, ao longo das quais grandes multidões aguardam com ansiedade o momento do desfile dos grupos, pois o Cortejo é composto por vários grupos de pessoas, (homens e mulheres) dos mais jovens aos de idade já avançada.

Cada um destes grupos tem o seu próprio traje, a sua própria música, o seu próprio Carro Alegórico, e dançam animadíssimos pelas ruas fora.

O samba, de origem brasileira, é a dança característica do Carnaval. É uma música muito alegre e as pessoas divertem-se bastante.

O Senhor Carnaval é muito inteligente, trabalhador e... lembra-se de cada coisa!

Todo o trabalho é feito com muito cuidado, às escondidas das pessoas, para que no dia do cortejo, seja uma surpresa. É um espectáculo imponente, o Cortejo de Carnaval, e é feito na véspera ou antevéspera do próprio dia de Carnaval. Depois, na terça-feira que é mesmo o dia de Carnaval, há outro Cortejo chamado Carnaval Trapalhão, que é muito divertido, porque as pessoas se vestem de qualquer maneira, com as roupas mais diversas e esquisitas, sapatos muito feios e velhos, pintam muito as caras ou usam máscaras muito feias, os homens vestem-se de mulher e as mulheres vestem-se de homem... Só visto! E aquelas carantonhas de bichos muito feios, que eles usam!... Às vezes, usam sapatos tão grandes, que mal conseguem andar, e narizes tão compridos, que quase não podem com eles. Mas divertem-se muito desfilando pelas ruas, fazendo barulho com latas e outras coisas, e muitas palhaçadas.

É assim o Senhor Carnaval, durante uns dias. Terminada esta euforia, o Senhor Carnaval volta a sossegar, a ficar quieto e calado. As crianças que haviam estado de férias para participarem nestas brincadeiras e também para descansarem um pouco, voltam à escola, e os adultos, aos seus empregos. Ninguém fala de Carnaval, senão no ano seguinte.

Entretanto, e embora aparentemente o Senhor Carnaval esteja sossegado, a verdade é que já começa a imaginar o que há-de fazer no ano seguinte. O seu cérebro é uma máquina que nunca pára e arranja sempre coisas engraçadíssimas e diferentes em cada Carnaval. Daí a começar a executá-las é um instante, porque são coisas que dão muito trabalho e levam muito tempo a fazer, apesar de serem centenas de pessoas a trabalhar de modo a que não possa haver descuidos.

O Senhor Carnaval voltará a aparecer no próximo ano com as ideias mais variadas.

Isto é uma pequena descrição do que conheço do Senhor Carnaval, para que os meninos que não conhecem, fiquem com uma ideia.

Ah, esquecia-me de falar dos Cabeçudos!... Seria uma falta imperdoável, pois são imprescindíveis num desfile de Carnaval. São uns homens que fazem parte do Cortejo, dançam muito animados e têm umas cabeçorras enormes e umas carantonhas muito feias que fazem rir muito as pessoas.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O ASSALTO, história de Ilona Bastos


O pai Francisco levantou-se do sofá e bocejou.
- Bom, está na hora de irmos para a cama - disse ele. - Estou cheio de sono.
A filha mais velha, a Luiza, olhou para a irmã, Ana, e fez uma careta.
-Não! – protestou. – Ainda é tão cedo!
A mãe olhou para o relógio e concordou com o marido:
- Temos mesmo de ir dormir, meninas, para amanhã nos levantarmos bem dispostos e podermos gozar o Carnaval.
Com ar ensonado, o pai desligou a televisão. E a mãe foi fechar a porta da rua, dando três ruidosas voltas à chave. As filhas seguiam, aflitas, os seus movimentos.
- Não podemos ir já para a cama - insistiu a Ana.
- Mas, porquê? - surpreendeu-se a mãe. E as meninas entreolharam-se, nervosamente.
Lembravam-se das recomendações da avó Adelina, que lhes pedira para guardarem bem o segredo e não estragarem a surpresa.
- Já são onze horas - disse a mãe. - Não compreendo a vossa insistência...
- É uma surpresa... - murmurou a Luiza, sem se conter.
Antes que a mãe pudesse fazer alguma pergunta sobre o assunto, soaram fortes campainhadas por toda a casa.
- Quem poderá ser agora? - perguntou o pai.
A Luiza e a Ana saltitaram, alegremente.
- Vamos abrir! Vamos abrir! É a surpresa!
Aberta a porta da rua, apresentou-se, à entrada, um palhaço, que cumprimentou a família:
- Boas noites a todos! Isto é um assalto!

A mãe Isabel reconheceu de imediato a voz simpática e a figura elegante da avó Adelina, que tirou a máscara, sorrindo, e deu-lhe um abraço.
- Que grande surpresa! - exclamou.
- É um assalto! - explicou a avó Adelina, alegremente. - Avancemos para a cozinha!
E, seguida por um grupo de entusiastas foliões, mascarados de trapalhões, damas antigas, índios e cowboys, invadiu a cozinha, aí depositando embrulhos, caixas e sacos, enquanto os mais pequenos se espalhavam pela casa, atirando serpentinas e papelinhos.
Rapidamente, o pai Francisco colocou no gira-discos uma música brasileira de Carnaval, convidando à dança. Acendeu todas as lâmpadas do candeeiro da sala e, com a ajuda das filhas, afastou a mesa para um canto e enrolou a carpete.
Preparava-se um esplêndido baile de Carnaval!
- Meninas, então as vossas fantasias? - perguntou a avó Adelina.
As netas correram ao quarto para vestirem as suas máscaras. A Ana transformou-se numa cigana, com um longo vestido rodado, bordado com missangas e lantejoulas. Enfeitou o cabelo com uma rosa vermelha, que lhe tornou as faces mais rosadas. A Luiza tornou-se numa bela nazarena, com as suas sete saias, o lindo avental bordado, o chapéu preto e o lenço. Os seus olhos brilhavam de alegria, quando se olhou no espelho.


Regressadas à sala, encontraram a mesa posta e coberta de doces e guloseimas. Havia bebidas, sanduiches, croquetes, rissóis e umas empadas com um aspecto delicioso.
Ao centro da mesa, apetitoso, fora colocado um belo semi-frio de natas e chocolate.
Todos conversavam, satisfeitos, desvendando aos donos da casa os planos do assalto e a identidade dos mascarados.
O pai Francisco ria-se como não fazia há muito: quem diria que aquela estranha criatura de duas caras era afinal o primo António, sempre tão sisudo! E quem poderia supor que a Dona Arminda, amiga da avó Adelina, habitualmente tão recatada, dançaria tão entusiasticamente ao som do "Mamã eu quero..."?!
A mãe prendeu também uma flor no cabelo, que a fez parecer logo mais jovem. O pai escolheu um chapéu de chinês, que lhe deu um aspecto muito cómico. Inspirado, executou um sapateado notável, que foi premiado com uma grande salva de palmas.

Satisfeita, a Luiza segredou à irmã:
- Estás a ver aquelas empadinhas? Vou comer uma!
Gulosa, a menina escolheu a que lhe pareceu mais douradinha e deu-lhe uma vigorosa dentada.
- Ah! Que horror! - exclamou logo de seguida, devolvendo a empada ao prato.
A avó Adelina deu uma gargalhada bem disposta:
- Então, gostaste das minhas empadas de Carnaval? Uma especialidade, com recheio de algodão! Mas prova o semi-frio, que parece estar muito bom. Foi feito pela prima Alzira!
A risota foi geral, quando a mãe Isabel tentou cortar uma fatia do famoso gelado. Não havia talher que lhe chegasse, pois afinal também ali havia uma partida carnavalesca - o doce não passava de uma esponja coberta de natas e chocolate!
As danças e brincadeiras prolongaram-se pela noite fora, e a família divertiu-se como nunca, esquecida do cansaço do dia, do sono, da hora e da vontade de ir para a cama.
Quando, finalmente, os "assaltantes" saíram, depois de despedidas efusivas, a Luiza e a Ana perguntaram aos pais:
- Não ficaram zangados connosco por termos começado uma festa exactamente quando estavam tão cansados e queriam ir descansar, pois não?
O pai Francisco e a mãe Isabel fizeram um ar muito sério, trocaram um olhar e franziram as sobrancelhas, deixando as meninas apreensivas.
Depois, não se contiveram por mais tempo e desataram a rir, dizendo:
- É Carnaval, ninguém leva a mal!
As filhas riram também, aliviadas.
Estavam todos muito felizes, e aquela fora, de longe, a melhor de todas as festas de Carnaval!